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16 de outubro, de 2018 | 16:32

A ameba, a memória social e o totalitarismo

Hermundes Flores *

“Para sabermos que o autoritarismo político não dá certo não é preciso fazer novas tentativas. Basta recorrermos à memória social, brasileira e mundial”

Um brilhante professor me ensinou que o método de aprendizagem mais elementar do ser humano não difere muito do modo como uma ameba aprende: tentativa e erro! Ela tenta de uma forma, se não der certo tenta de outra. Se der certo, repete a tentativa que deu certo. Ademais, um grande pensador estadunidense do século XIX, chamado Charles Peirce, lembra que a capacidade de fazer inferências intuitivas (abdução) a partir da observação é da genética humana. Observamos as coisas e acontecimentos ao nosso redor e somos capazes de imaginar para além do que vemos.

Mas não é apenas a capacidade de abdução que nos torna melhores do que as amebas. Há outra diferença muito importante em relação a elas. Nossa memória coletiva. Nós, seres humanos, desenvolvemos uma série de mecanismos (ditados populares, a escrita, imprensa, livros, internet etc.) por meio dos quais se registra as experiências de outros indivíduos e sociedades que, no seu conjunto, formam a memória social.

Isso significa que para saber que uma experiência não vai dar certo não é preciso que eu tente se na memória social está registrado e acessível que tal tentativa já foi experimentada por uma sociedade ou grupo de indivíduos de diversas formas diferentes e deu errado. Por isso é tão importante conhecer a história e mais do que isso, cultivá-la e divulgá-la não apenas pelos meios formais de educação.

Para sabermos que o autoritarismo político não dá certo não é preciso fazer novas tentativas. Basta recorrermos à memória social, brasileira e mundial, do presente e do passado, para saber que, à esquerda ou à direita, totalitarismo sempre descamba em violência e repressão estatal contra o indivíduo com desrespeito aos direitos humanos mais fundamentais.

Ah! E se um fato não ocorreu comigo ou meus ascendentes não significa que ele não ocorreu, a aprendizagem social não se dá apenas por experiências individuais, é por isso que conhecemos a lei da gravidade ainda que uma maçã jamais tenha caído em nossas cabeças.

No momento em que vivemos precisamos com urgência conhecer a história do Brasil e do mundo. Essa é a única arma infalível contra a desinformação da “pós-verdade” e da fake news.

E para aprender a respeito do autoritarismo político, recomendo vivamente a leitura do livro “As Origens do Totalitarismo”, de uma pensadora judia chamada Hannah Arendt. Se não tiver tempo de lê-lo, busque vídeo-aulas e entrevistas fartamente disponíveis no Youtube sobre o assunto. No Brasil atual, por incrível que pareça, a constituição da memória social acerca dos malefícios do totalitarismo é deficitária. Que essas reflexões estimulem minimamente a sua integração.

* Membro Diretor do IAMG Seção Ipatinga. Professor. Advogado. Mestre em Filosofia do Direito. Doutorando em Comunicação.

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