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16 de setembro, de 2018 | 13:00

Um novo olhar para a crônica policial

Edmilson Firmino de Souza

Edmilson Firmino foi repórter policial no DA nos anos 1990 Edmilson Firmino foi repórter policial no DA nos anos 1990
Em uma tarde de 30 de agosto de 1993, uma sexta-feira, o repórter do Diário do Aço, Oscar Llorent, após uma coletiva em Timóteo, me oferece uma carona no carro de seu jornal, até Ipatinga. Eu era repórter no jornal Diário do Rio Doce, sucursal Vale do Aço. Pensei que era apenas uma carona oferecida pelo colega. Assim que entrei no veículo, o motorista Betinho resmungou:
- Oscar, você sabe que não podemos dar carona.
Interrompendo o motorista, Oscar Llorent foi logo perguntando se eu desejava me transferir para o Diário do Aço. Aceitei o novo desafio, mesmo porque o salário de lá era bem mais vantajoso. Após breve conversa com o então dono do jornal, fui contratado.

Trabalhei praticamente em todas as editorias do jornal, terminando na temida ‘Polícia’, cujo cargo também era do tal Maurício Ribeiro, o lendário Cabeção, que veio a se afastar do jornal, por sérios problemas de saúde.

Em todas as editorias, fiz memoráveis reportagens. Tão logo comecei a cobrir o setor de Polícia, percebi que os colegas repórteres policiais da região eram movidos a copiar os Boletins de Ocorrências (BO’s) de pequenos furtos, conflitos familiares e uso de drogas. Sem provas, supostos autores expostos nas páginas policiais, em flagrante desrespeito a direitos fundamentais.

Prudencialmente, passei a filtrar melhor os BO’s. A partir daí, comecei a fazer reportagens apenas sobre casos relevantes nas delegacias de polícia. Como alternativa, passei a ir mais aos fóruns, atrás de notícias, pesquisando processos dos casos de maior repercussão. Também fazia questão de acompanhar os julgamentos históricos. De lá, eram extraídas excelentes reportagens.

Ao solicitar este artigo, o editor Alex Ferreira sugere que eu fale um pouco sobre minhas fontes dos incontáveis furos jornalísticas que esgotavam as vendas nas bancas. Na verdade, não havia um perfil definido das minhas fontes. Normalmente eram leitores comuns, passando pelos próprios policiais de patentes inferiores a advogados, dentre eles, José Roque Pires, Jaime Queiroz Rezende e Emílio Celso Ferrer Fernandes, que se tornaram posteriormente meus amigos.

Mas, foram as reportagens policiais, as mais tensas. Principalmente as que envolviam abusos praticados por policiais civis e militares. Em uma delas, um delegado ameaçou metralhar a redação, sentindo as dores de um detetive denunciado por torturas. O dono do jornal solicitou reforço ao 14º BPM, que cercou o quarteirão do jornal com militares. Ainda bem, ficou apenas na ameaça e a edição pode circular normalmente.

Sempre me esforcei para não cometer injustiças. Ainda sou da opinião que o cidadão comum não pode receber tratamento diferenciado na imprensa, em detrimento aos mais ‘poderosos’. Pau que dá em Chico dá em Francisco e o bom senso deve prevalecer.

Lembro-me que, certa vez, uma juíza de Direito da Comarca de Ipatinga mandou recolher um médico condenado à prisão, por desvios de benefícios de aposentados, após eu flagrá-lo, desfrutando da liberdade, no Centro Comercial do Cariru. Virou notícia e a sentença foi cumprida.

Houve também o caso de um médico acusado de matar o seu namorado no motel, cuja ocorrência ‘sumiu’ na delegacia de polícia. Era muito comum ‘desaparecerem’ BO’s. O jeito era procurar outros meios para desvendar os casos dessa natureza.

Foram inúmeras as reportagens policiais ‘especiais’, desde cobertura de matança em garimpo, torturas, chacinas e ao famoso ‘Crime da Mala’ – quando encerrei a carreira de repórter. O colega Rodrigo Neto que morreu me perguntando ‘o que eu sabia a mais, de fato, desse crime’, veio mais tarde a me substituir na cobertura policial. O Crime da Mala nunca foi desvendado.

Nesse episódio, por muito pouco o jornal não cometeu uma das maiores injustiças. Na época uma jovem foi encontrada esquartejada dentro de uma mala boiando no rio Piracicaba, perto da prainha, em Coronel Fabriciano.
O delegado na época se apressou em apresentar o “acusado” do crime, além de “identificar” a vítima, como se fosse uma garota de programa de Timóteo. Não acreditei na versão. Fui à casa da suposta vítima que estava viva, isso, no início da madrugada.

Os editores aguardaram a informação para fechar jornal com o desfecho da notícia. Enquanto, no dia seguinte, todos os outros meios de comunicação publicavam que a polícia havia desvendando o ‘Crime da Mala’, o DA dava outra versão para o crime e a justiça determinou a imediata soltura do suspeito.

Bravo, o então delegado queria me ‘esquartejar’, literalmente. Chegou até a ‘apreender’, na antessala da delegacia, outro jornalista que levava o meu mesmo prenome. Pálido, Edmílson Araújo, da Rádio Vanguarda, teve de argumentar para provar que não era eu. Saiu de lá e veio me alertar da ira do delegado.
- Ainda bem que você não foi lá naquela manhã – brinca até hoje o colega.
Depois de investigar o ‘Crime da Mala’, sem um desfecho final, cheguei ao jornal e pedi demissão. Ninguém compreendeu. Há quem diga que minha vida estava em risco.

Responsabilidade
A completar seu 40º aniversário, o Diário Aço, carrega a responsabilidade e o histórico de ter dado contribuição relevante no relato de muitos fatos históricos da região. Também enquanto verdadeira escola de jornalismo.

Sem nenhuma vaidade, no meu caso específico, acredito que dei uma modesta parcela para um novo olhar na cobertura da crônica policial, ainda que este formato ousado de jornalismo investigativo, posteriormente, tenha custado um valor muito alto com o covarde assassinato do repórter Rodrigo Neto.

Por outro lado, sou grato a todos os meus editores e conselheiros, sobretudo ao então diretor, o saudoso jornalista Wilton Rodrigues, que não mediu esforços para proteger e valorizar os seus profissionais.

Graças à experiência de repórter policial investigativo passei a ter também um novo olhar para a vida. O que se aprende numa redação é para a vida toda.

(*) Autor do Atlas Pensar Vale do Aço e organizador do inédito Estudo de Percepção Social do Distrito Federal (DF), enquanto diretor de empresas de pesquisas.

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