24 de agosto, de 2018 | 00:01
Os recalques da cidade e seus retornos (artísticos, políticos ou catastróficos)
Beto Oliveira *
Pode parecer estranho, mas o que vale para o psiquismo de um sujeito também pode valer para uma cidade”Grande parte da teoria freudiana repousa no argumento que aquilo que é recalcado, ou seja, expulso da parte consciente do aparelho psíquico, retorna em forma de sofrimento e sintoma. Em outras palavras, aquilo que insistimos em não lembrar, evitamos de dizer e recusamos a elaborar, repete de formas distintas em nossa vida mental, corporal e social. Por isso, Freud adverte que a repetição e a insistência do sintoma devem ser substituídas pela recordação em palavras. Ao invés de resistir a lembrar, lembrar para resistir.
Pode parecer estranho, mas o que vale para o psiquismo de um sujeito também pode valer para uma cidade. Se bem que isso não soa tão estranho se lembrarmos que o próprio Freud evitou distinguir a psicologia individual da psicologia de grupo, alegando que um grupo (e talvez também a cidade) é composto de indivíduos, assim como um indivíduo se constitui a partir dos grupos que o cercam. Lacan foi ainda mais enfático ao dizer que o inconsciente é a política”. E, claro, a política é condição da polis”, ou seja, da cidade.
Assim, também para a cidade é importante não recalcar, não esquecer e não tornar inconsciente mesmo aquilo que lhe é doloroso. Os alemães parecem ter escutado esse ensinamento e, por mais vergonhoso que o nazismo tenha sido para eles, é possível encontrar em frente a algumas casas uma placa com o nome da família judaica que teve que abandonar aquele lar no período nazista. Também em algumas cidades pode-se ler placas com as proibições da década de 30 aos Judeus, como: Judeus só podem sentar em bancos amarelos”.
Mutatis mutandis, Ipatinga também tem pelo menos um grande acontecimento que envergonha e faz doer seus cidadãos. E quem tiver um olhar mais atento também poderá perceber tentativas de lembrar, elaborar, falar e, principalmente, não recalcar a chacina operada por forças militares que resultou, no dia 7 de outubro de 1963, na morte de funcionários da Usiminas que reivindicavam melhores condições de trabalho. Em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos há um monumento que faz menção às vítimas do massacre.
A Comissão Nacional de Anistia também inaugurou em 2013, no centro da cidade, o Monumento à Resistência e à Luta dos Trabalhadores”, que, igualmente, homenageia os funcionários que sofreram o atentando. Há ainda em Ipatinga um centro esportivo cultural chamado Sete de Outubro (data do massacre) e um Hospital Municipal que recebeu o nome de Eliane Martins, criança de três meses baleada nos braços de sua mãe. Entre o Horto e o Bom Retiro encontramos ainda um painel, em grafite, do artista Gunther Estebanez, com o rosto de operários, também nos recordando da triste e dolorosa história do município.
Por esses dias, outras linhas tristes foram escritas na história de Ipatinga. A Usiminas registrou, em menos de uma semana, três acidentes graves. Entre a morte do funcionário de uma empreiteira que presta serviços à Usiminas e a amputação do braço do eletricista de uma empresa terceirizada, um gasômetro explodiu deixando em pânico funcionários e moradores da cidade.
Ainda pairam dúvidas sobre as causas dos acidentes, mas parece certo que, por mais triste e dolorosa que tenha sido a semana, é preciso não silenciar, não deixar esquecer e não recalcar tais acontecimentos. Só assim poderemos ter esperança de que corremos menos risco do sintoma se repetir.
Talvez seja mesmo o caso de pensar se estética, política e socialmente seria interessante incluir, ao lado dos funcionários do grafite de Gunther Estebanez, a imagem do gasômetro explodido que tanto se fixou na cabeça da população, na TV, jornais, e nas mídias sociais. A arte talvez nos ajude a lembrar do ocorrido, a repensar as terceirizações, a questionar as causas dos acidentes e a pensar um destino melhor para a cidade.
* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral A família de Arthur”.
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