01 de agosto, de 2018 | 15:36
As mitadas de um herói no país da lacração
Beto Oliveira *
Ele segue subindo (sem se elevar) com frases de efeito que dão a impressão a seus seguidores de que ele mitou ou lacrou”Por meio do teatro, Dias Gomes conseguiu ilustrar alegoricamente a ideia brechtiana de que é muito triste para uma nação depender de heróis. O musical O berço do herói”, que inspirou a novela Roque Santeiro, revela os bastidores da criação de um mito e denuncia as mazelas da vila de Asa Branca, que tanto dependia do herói que ela mesma forjou. Na peça original o herói não é um santeiro, mas um militar, o Cabo Roque, que passou para a história como um pracinha que lutou bravamente contra os fascistas na Itália. No entanto, a cidade vai aos poucos descobrindo que o herói não passa de um covarde de poucas qualidades e, além de tudo, desertor. Mesmo assim, a despeito das revelações, a cidade faz de tudo para manter o mito vivo, sem manchas em sua reputação.
Euclides da Cunha também faz uma descrição interessante sobre outro herói” nacional oriundo do nosso exército; dessa vez um personagem real. Ao explicar a popularidade de Floriano Peixoto, primeiro ditador do país, cujo regime foi marcado por violência e repressão, o autor de Os sertões” afirma: O herói, que foi um enigma para seus contemporâneos (...) cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar”.
O Brasil do Marechal Floriano parece ser o retrato da nação que precisa de heróis: não confiando em suas instituições, fragilizadas, na sua política, pouco representativa, e na sua justiça, viciada e parcial, a nação se deprime para que, sem se elevar, um mitológico salvador da Pátria suba. Muitos heróis resultam dessa depressão em seu entorno, o que acaba por mascarar seus despreparos, suas inconsistências e, em alguns casos, seu autoritarismo e sua violência.
Assim como o fictício Cabo Roque e o real Marechal de Ferro, um dos mais recentes candidatos a salvador da Pátria também advém do exército. Militar da reserva e deputado pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro parece querer subir sem se elevar. Confessadamente despreparado para assuntos como economia, saúde e educação, mas também sem conseguir mostrar planos novos, eficazes, criativos e bem embasados para a segurança e outros assuntos que lhe são mais próximos, ele segue subindo (sem se elevar) com frases de efeito que dão a impressão a seus seguidores de que ele mitou” ou lacrou”.
Sua entrevista no programa Roda Viva, dia 30, anunciou o que podemos esperar da disputa presidencial desse ano. O que deveria ser a apresentação do seu programa de governo virou quase uma batalha de memes”. Ganhar-se-ia muito mais se os jornalistas, em vez das tentativas de enquadrar o entrevistado, por exemplo dizendo que Jesus é um refugiado e confrontando isso com a religião do mesmo, perguntassem quais são os projetos dele para a questão da imigração. Ou ainda o que ele entende por tornar o Brasil liberal, já que disse querer ser lembrado por isso. Ou mesmo como foi sua visita aos quilombolas e quais os efeitos dessa visita em seus planos acerca da demarcação de terras.
O candidato, por sua vez, não respondeu às perguntas mais diretas que tratavam dos seus planos para a mortalidade infantil, saúde, educação e economia, que pareceram todos muito vagos e imprecisos. Mesmo acerca da segurança, em vez de detalhar suas propostas e, principalmente, os dados e raciocínios que o levaram até elas, optou por dizer coisas como: então você deixa o bandido atirar e joga uma florzinha nele”, frase que leva ao êxtase o seu eleitorado.
Talvez seja melhor que os jornalistas e, principalmente, os candidatos, deixem os memes”, as mitadas” e as lacrações” por conta do criativo internauta brasileiro e procurem elevar às discussões para que consigamos ter um debate mais qualificado, com apresentação de propostas, dados e justificativas. Senão corremos o risco de deixar mais um herói subir pela depressão que o cerca.
* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral A família de Arthur”.
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Anna Lhamas
03 de agosto, 2018 | 12:10Brilhou em seu texto!”