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07 de junho, de 2018 | 15:20

A greve ainda não acabou

Ronaldo Soares *

“Está cada vez mais difícil o governo entregar aquilo que prometeu aos caminhoneiros”

A greve dos caminhoneiros, deflagrada no dia 21 de maio, e encerrada no último dia 30, dá sinais de que seu fim (real) está muito distante. O acordo que foi realizado com as lideranças do movimento está muito longe de ser cumprido pelo governo. A questão é que o problema colocava, do mesmo lado, patrões, empregados e terceirizados contra o governo. O problema é que um dos itens do acordo distancia patrões dos terceirizados e incorpora um novo insatisfeito: os clientes, sejam das transportadoras, sejam dos terceirizados por elas contratados. E o item tem um nome: Frete mínimo (aquele que garante um valor de retorno da viagem com o caminhão vazio).

Por outro lado, enquanto as empresas transportadoras se movimentam para mudar a tabela do frete mínimo, os caminhoneiros acompanham, com desconfiança, o andamento das negociações em Brasília. Nas mídias sociais, os motoristas temem que o lobby dos grandes grupos consiga derrubar a tabela recém instituída pelo governo como contrapartida ao fim da greve. E eles prometem resistir.

Em uma entrevista para a Rádio CBN no dia 5, pela fala do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, percebi que está cada vez mais difícil o governo entregar aquilo que prometeu, inclusive, outros itens do acordo. Primeiro, porque me parece mal assessorado. Inicialmente, defini que agirá com rigor junto aos postos de abastecimento que não repassarem o desconto de R$0,46 no óleo diesel. Depois, acena que o valor correto é R$0,41 e somente depois do dia 15/6 é que agirá com esse rigor, uma vez que a reunião com determinado conselho que faz uma média “x” poderá implementar o impacto do desconto na redução do ICMS de cada estado para daí chegar ao total de R$0,46. Depois, acena que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), irá fazer consulta pública para definir modelo de “colchão” que poderá possibilitar a periodicidade dos reajustes dos combustíveis na bomba.

Como se não bastasse, o governo continua sendo absorvido pela sua maior demanda até então: Continuar sendo governo. Essa semana, a Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal a quebra dos sigilos bancários e telefônicos do presidente Michel Temer e dos ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco. Com a pressão dos produtores de grãos, representados pela confederação Nacional da Agricultura, que estudam não contratar transportadoras em função da elevação dos custos logísticos a partir da tabela do frete mínimo (pensam em primarizar o serviço, ou seja eles próprios adquirirem caminhões e carretas e se encarregarem de entregar seus produtos) o governo caminha com dificuldade para chegar a 31 de dezembro e entregar os diversos “abacaxis” ao sucessor. A questão é que tanto a greve quanto as investigações permitirão chegar até lá?

Ainda sobre a ANTT, a Agência está refazendo os cálculos e deverá apresentar em breve o resultado. São muitas variáveis para definição do km rodado que por sua vez estipula o frete mínimo o que torna o cálculo mais complexo. Vai desde o número de eixos, quanto o trecho a ser rodado, condições das estradas, experiência do motorista, estado de conservação do caminhão...muita coisa para se chegar em valor de consenso. No entanto, o presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCAM), José da Fonseca Lopes, afirma que uma tabela de preço mínimo vinha sendo negociada no Congresso antes da greve e da medida provisória ser emitida. Afirma que desde 2016 essa proposta vem sendo negociada, sem sucesso – ignorando as condições precárias nas quais vivem os motoristas de caminhão no Brasil. Ao fim, aponta: caso a tabela de frete mínimo caia, o movimento grevista retornará com mais força e mais ira! A greve ainda não acabou (pode, realmente estar começando)

* Consultor


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