20 de março, de 2018 | 16:12
Por que um dia sobre a discriminação racial?
Angélica Barroso Bastos *
Não conseguimos, de forma plena e efetiva, viver em uma sociedade livre, justa e sem preconceito, como previsto na Carta Magna brasileira”Neste dia 21 de março é comemorado, em todo o mundo o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em memória ao Massacre de Shaperville, que ocorreu em 21 de março de 1960, quando cerca de vinte mil pessoas protestavam contra a Lei do passe - que obrigava os negros a andarem com identificações que limitavam os locais por onde poderiam circular dentro da cidade -, em Joanesburgo, na África do Sul e tropas militares do Apartheid atacaram os manifestantes e mataram 69 pessoas e feriram outras centenas.
Mais de cinquenta anos se passaram do acontecimento acima descrito, e muitos podem se perguntar sobre a necessidade da ONU manter a comemoração, já que, a muitos olhos, a população negra está mais que inserida na sociedade. Todavia, devemos fazer a seguinte reflexão: será que está mesmo? Mesmo sendo a maioria da população brasileira (segundo dados do IBGE os negros representam 54% da população), ainda vemos diversos locais ocupados majoritariamente por brancos, que muitas vezes sequer percebem essa desigualdade presente no seu ambiente.
Recentemente, na rede social Facebook foi criada uma página, denominada #sentinapele em que pessoas vítimas de preconceito compartilham as ofensas sofridas diariamente e, dentre uma delas, merece destaque o relato de um jovem negro, morador de uma favela no Rio de Janeiro e estudante de pedagogia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que narra ter sido abordado por policiais três vezes em 30 minutos.
Na última abordagem, quando disse que era a terceira vez que era revistado, o policial afirmou que não tinha culpa dele ser um cidadão padrão para revista”. Essa fala deixa clarividente como a ideia de verdadeira inserção da população negra no Brasil ainda está longe de ocorrer. Ao contrário, está mais próxima do acontecido na década de 1960 na África do Sul, onde os negros tinham limitação de local para circular.
O que vemos no Brasil é exatamente a segregação da maioria dos negros em certos locais, profissões e esportes, ou seja, o normal” é um negro morar na favela, trabalhar em um subemprego, principalmente naqueles de atividades domésticas e se dedicar a esportes que exigem grandes esforços físicos, como basquete, futebol e atletismo. Quando um negro se torna uma celebridade e passa a ter grande visibilidade nacional, crescem também as hostilidades contra o mesmo, principalmente nas redes sociais, local onde as pessoas, infelizmente, sentem-se no direito de proferir ofensas públicas a outros de forma impune.
Apesar da Constituição Brasileira já prever, desde 1988, que o racismo é um crime tão grave que a ele não cabe nem fiança e nem prescrição, além de repudiar todas as formas de discriminação e preconceito, ainda vemos que essas práticas estão muito presentes em nossa sociedade, de forma explícita ou não.
Por tudo acima exposto podemos responder a pergunta: por que um dia sobre a discriminação racial? Porque ainda não conseguimos, de forma plena e efetiva, viver em uma sociedade livre, justa e sem preconceito, como previsto na Carta Magna brasileira, em que todos deveriam ser tratados com igual respeito e dignidade. Enquanto tivermos que lutar para que todas as pessoas sejam reconhecidas como iguais e, logo, merecedoras dos mesmos direitos, ainda teremos que destinar datas para refletirmos se estamos, de fato, promovendo em nosso cotidiano, a igualdade de todos sem preconceitos de qualquer natureza.
* Professora do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (Unileste) www.unilestemg.br
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