01 de março, de 2018 | 16:06
OUTSIDERS: NOVA EMBALAGEM DE VELHAS PRÁTICAS
Ronaldo Soares *
"O momento e o cemitério nos colocam nos devido lugar”
O outsider não tem direito de errar”
Fugindo um pouco do tema sobre negócios, mas falando sobre algo que tem flertado muito com a classe empresarial (e uma maioria de eleitores frustrados com políticos de carreira e suas práticas contumazes) as eleições de 2016 trouxeram a figura do outsider”, aquele que se apresenta como não político e remete-se à sua origem na iniciativa privada. Às vezes autodenominam-se como gestores” e não governantes (ou potenciais governantes).
Na verdade, ao governante deve-se incluir, entre suas atribuições, as atividades inerentes à gestão pública. No entanto, dizer que basta o suficiente conhecimento de gestão para governar pode ser um erro. Existem questões mais complexas que a gestão, por si só não resolve, mas sim a capacidade de liderar pelo exemplo, pelo respeito aos vários segmentos da sociedade e, sobretudo, pela capacidade de atender às demandas de todos sem perder de vista a prioridade do coletivo sobre o individual e, principalmente, sobre os grupos de interesse.
Quando se apresentam nomes para as próximas eleições, sobretudo os outsiders”, aqueles sem lastro de mandatos anteriores, iniciantes no cenário político-partidário, já se pode mirar nos exemplos dos eleitos em 2016 para entender que o sistema” é maior do que o perfil de cada um. As práticas de atender aos interesses de grupos políticos, cujos votos na Câmara de Vereadores são fundamentais para governar”, o outsider repete práticas de seus antecessores, uma vez que tal modelo impõe atender aos mais próximos em detrimento de colocar a serviço da população os mais competentes que o dinheiro público pode pagar.
Na composição de governos, muitos que se apresentaram como novos” na política, miraram na formação de equipes prioritariamente técnicas, cooptadas no mercado, mas acertaram naquelas cujas influências parlamentares ou capacidade de receber apoios de outras esferas (deputados estaduais, deputados federais, governador, etc.) sinalizavam. Com o tempo, os ocupantes de cargos comissionados que não significam votos” são rapidamente substituídos, sobretudo, pressionados por aqueles que militaram na campanha e que reivindicam o retorno do investimento” pessoal ou financeiro na campanha.
É o sistema! O governante tem que ter muito apoio popular para não se sustentar a partir desse apoio pragmático. A nossa cultura já impregnou em nossas entranhas a máxima do primeiro eu, depois o resto”. O que contrapõe é que essas mesmas pessoas que lesam patrimônio público, o erário e toda uma geração que perde por não receber serviços públicos de qualidade, dominicalmente vão pedir perdão a seus pecados (algo como diminuir o estoque para retomá-lo na segunda-feira).
Somos, em nossa maioria autodenominados cristãos e, no dia-a-dia, declinamos a colocar em prática seus ensinamentos, procurando dar sobrevivência às nossas necessidades materiais e ao nosso egocentrismo (ou o leitor acha que os protagonistas da Operação Lava Jato não iam às pregações nas suas respectivas religiões?).
Temos uma sociedade doente que necessita de reformas profundas. Se não rompermos com essas práticas, nem um verdadeiro outsider” conseguirá realizar um governo exemplar. É preciso entender que não somos o melhor que podemos ser em todos os campos da vida (familiar, social, econômico, profissional, etc.), mas é imponderável que busquemos a mudança de atitude. Para isso, recomendo não deixar de ir a velórios de amigos, parentes ou colegas de trabalho. O momento e o cemitério nos colocam nos devido lugar.
Outro aspecto importante é que o outsider não tem direito de errar. Dele se espera não encontrar nada do que seus antecessores praticavam. Por isso, um aviso importante: o eleitorado será implacável no julgamento do seu governo, sobretudo, se pleitear a reeleição. Não poderá errar mais do que o razoável. E a notícia triste é que o razoável não tem medida, é subjetivo. Ou seja, não erre.
Por fim, as novas gerações terão responsabilidade enorme no processo da escolha de governantes, mas, deverão ficar atentas à correção de sua rota. E, infelizmente pouco se informam a respeito dos candidatos. Razão disso é que os próprios estudantes continuam com atitudes correlatas aos políticos tradicionais. Por exemplo: continuam a assinar as listas de presença sem assistir às aulas, colocam o nome em trabalhos de grupo sem participar de qualquer atividade, voltam-se às redes sociais nos smartphones enquanto uma palestra é ministrada (e ainda exigem que os políticos sejam melhores).
Há outra fatia dessa juventude que se volta para o empreendedorismo. É um bom caminho que eles pavimentam, mas esquecem que a cidadania é indispensável para que o mercado, do qual vislumbram participar, funcione livre das amarras do Estado e que esse Estado ao qual pertencem cumpra seu papel indelegável de propiciar infraestrutura, educação, saúde e mobilidade. Portanto, nem tanto ao céu e nem tanto ao inferno. A questão é que os outsiders” encontram terreno fértil nessa fatia da sociedade, nos mais moços. É o perigo que se corre.
* Consultor
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