03 de novembro, de 2017 | 17:28

O grande acordo da nação, com o Supremo, com tudo “D’accord, d’accord’, d’accord”

Beto Oliveira

De acordo com documento divulgado em março de 2017 pelo Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), o Brasil, caso não aumente o orçamento do Bolsa Família, terá até o fim do ano cerca de 3,6 milhões de “novos pobres”. De acordo com estudo feito pela Oxfam, comitê criado na Inglaterra em 1942 para combater a fome, seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade da população mais pobre do país, enquanto 5% da população mais rica detêm a mesma fatia de renda que os outros 95%. De acordo com o Departamento da Indústria da Construção da Fiesp, o déficit habitacional do Brasil, ou seja, o número de cidadãos sem moradia adequada, continua ultrapassando a casa dos 6 milhões, mesmo que tenha havido, segundo o mesmo departamento, uma queda expressiva no período entre 2010 e 2014.

De acordo com relatório divulgado em 2014 pelo Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias), o Brasil conta com mais de 620 mil detentos, 28% deles respondendo ou condenados por tráfico de drogas, 38% por roubo ou furto, 10% por homicídio e 16% por outra motivação, o que somando forma a quarta maior população penitenciária do mundo, atrás apenas de E.U.A., China e Rússia. De acordo com o Fórum Econômico Mundial sobre a desigualdade de gênero, o Brasil só apresentou menor desigualdade salarial entre homens e mulheres em relação a 15 dos 144 países que participaram da pesquisa. De acordo com Anexo Estatístico da População Negra publicado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), os rendimentos médios reais recebidos no mês pelos negros é 40% menor do que o recebido pelos brancos.

De acordo com um levantamento feito pelo site pornográfico Redtube, o Brasil é o país que mais procura por pornografia transexual em sua plataforma e o termo “Shemale” é o quarto tópico mais buscado pelos brasileiros, ao mesmo tempo em que, de acordo com a ONG Transgender Europe, rede europeia que luta pelos direitos da população trans, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais em todo o mundo. De acordo com relatório publicado em 2012 pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), foram registrados naquele ano mais de 3 mil denúncias de agressões contra o público LGBT, o que representou um aumento de mais de 160% em relação a 2011.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgada em 2016, o Brasil ainda tem 12,9 milhões de analfabetos e, mesmo que essa taxa venha caindo na última década, o recuo é considerado extremamente lento pelos próprios pesquisadores do Pnad. De acordo com pesquisa feita para o Índice Nacional de Analfabetismo (Inaf), apenas 8% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são capazes de se expressar e de compreender plenamente. De acordo com levantamento feito em 2016 pelo movimento “Todos pela Educação”, apenas 4,5% das escolas públicas do país têm todos os itens de infraestrutura previstos por lei. De acordo com dados do Ministério da Cultura de 2009, apenas 14% dos brasileiros vão regularmente ao cinema, 96% não frequentam museus, 93% nunca foram a uma exposição e 78% nunca assistiram a espetáculos de dança. De acordo com o MEC, 44 das 64 Universidades Federais do país tiveram cortes orçamentários entre janeiro e junho de 2017, 249 milhões a menos do que o mesmo período de 2016. De acordo com a OIT (Organização Internacional do Trabalho), após modificação na definição de trabalho escravo elaborada pelo governo Temer, o Brasil deixou de ser referência no combate à escravidão e passou a ser um exemplo negativo. Tudo “de acordo”, “de acordo” com um grande acordo, um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo. D’accord.

* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.
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