15 de agosto, de 2017 | 12:33
O brasileiro e sua insana mania de economizar em coisas erradas
Daniel Toledo
Existe uma grande diferença entre oportunidade e oportunismo. Uma é aquela em que as pessoas querem levar vantagem em tudo, ser esperto, ganhar a qualquer custo, sendo que a outra vai na contramão deste movimento cada vez mais presente e enraizado na cultura brasileira.Enquanto eu morava no Brasil, vivenciei diversas situações em que deparei com o oportunismo, e isso me incomodava demais. Por isso, desde quando fixei residência nos Estados Unidos, decidi por um ponto final nisto. Hoje eu não tolero esse comportamento, e principalmente as pessoas que convivem comigo sabem o quanto sou rígido fazendo duras críticas quando identifico o vício do oportunismo nas minhas relações de negócios.
A cultura do Brasil é riquíssima, linda e super diversificada. Porém, esse vício maldito acaba com a beleza. A necessidade de levar vantagem deixa as pessoas cegas e a feira de Acari, no Rio de Janeiro, é um belo exemplo deste contraste. O mercadão de produtos roubados é promovido às custas de inúmeras mortes e assaltos por conta de um comércio que não tem fim.
Em São Paulo, na Avenida Paulista, tem um shopping de artigos chineses a preço popular. Confesso que eu ia todo fim de semana lá para olhar as novidades e sempre comprava um DVD ou outro e um monte de outras coisas que eram considerados réplicas de primeira linha. Quem realmente usa artigos de luxo sabe a diferença entre o pirata e o original.
Mesmo que você tenha um auto estima lá em cima e não se incomode com a julgamento dos outros, ou é do tipo que adota a política do estou nem aí”, existe algo implícito neste jogo muito mais grave do que a opinião alheia, que é o dano causado pelo consumo destes produtos, que não pagam impostos nem recolhem tributos. E só por isso esse produto chegou até o seu consumidor final. Vidas acabam porque alguém tem a necessidade porca de comprar algo baratinho”. E não é exagero.
Tenho um amigo que hoje reside nos Estados Unidos. A família dele, quando morava no Brasil possuía uma transportadora com cinco caminhões. Sempre que se tratava de uma carga valiosa, quem fazia o transporte era o pai, o dono da empresa. Ele tinha esse cuidado para zelar pelo material do cliente e garantir que o produto caro chegaria ao seu destino conforme o esperado, sem danos. Até que, um dia, ele foi sequestrado e roubado.
A quadrilha pediu R$50 mil reais de resgate e a carga era de televisores. Ele ficou quatro dias em cativeiro e não havia possibilidade de pagar pelo valor exigido. Não avisaram a polícia e as negociações chegaram a R$10 mil. A quantia foi paga, mas o pai foi encontrado morto, sendo que ele havia falecido muito antes da entrega do dinheiro.
Ainda me questiono como as pessoas têm coragem de comprar esses produtos. O detergente mais barato, o salame ou o sabão em pó vendidos na feira de Acari custaram a vida de alguém. Isso deixou o seguro para todo mundo mais caro, impactando a economia como um todo. Quantas vezes subiu o seguro do seu carro? Mas na hora de comprar uma peça, muitos não abrem mão de ir até um desmanche. É essa consciência que precisa mudar. Quando isso acontecer, o país muda de patamar.
Quem compra produto pirata ou fruto de roubo de carga não faz ideia do prejuízo para o país, além da energia negativa que vem de carona. O brasileiro precisa parar de aceitar migalhas dos outros, mudar a condição de vida e adquirir itens que de fato possuem qualidade e são duráveis. Comprar itens de péssima qualidade ou por preços até 70% a menos do que comercializados em lojas tradicionais jamais pode ser um bom negócio.
* Advogado, sócio da Toledo and Associates e da Loyalty Miami.
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