15 de agosto, de 2017 | 09:21

O Mercosul e a Venezuela

Stefan Salej

Divulgação
Viver em um estado que não tem nem fronteiras estrangeiras e nem acesso ao mar é uma coisa. Outra coisa é viver na fronteira e, em especial, hoje, nas fronteiras com a Venezuela, de onde vêm milhares de pessoas fugindo da fome, enfrentando o desespero e a falta de emprego. Sim, os venezuelanos estão fugindo e vindo para Brasil.

Os retratos de luta nas ruas de Caracas e de falta de alimentos no país todo são a realidade que o social bolivarismo criou para o seu povo. Estranhar o que está acontecendo na Venezuela, riquíssima em minerais e petróleo, é ignorar o que acontecia desde que Hugo Chávez assumiu o poder, há 18 anos.

O truculento Maduro, que o sucedeu, só pegou o estado venezuelano quebrado porque, na época de Chávez, o preço do petróleo, único bem exportável do país, estava, como o preço de outras matérias primas, lá nas alturas, e agora não vale nem a metade do que valia daquela época.

O Brasil aproveitou bem a amizade com Chávez e nossas empreiteiras fizeram um verdadeiro bacanal nos negócios por lá. Uma empresa de construção de siderúrgicas que só sabia como faturar algumas vezes mais a remoção de terra, quando fez a terraplanagem da Açominas, construiu uma siderúrgica cinco vezes mais cara do que vale no mercado internacional.

E assim foi com inúmeras obras executadas pelas empreiteiras brasileiras. Mas, quem se incomoda com isso, se o credor desse dinheiro não são as empresas, mas o nosso BNDES e outros órgãos similares? O Brasil é que não vai receber e, pelos cálculos bem otimistas, os venezuelanos nos devem mais de 45 bilhões de dólares.

É aí que mora o problema do nosso relacionamento com Caracas. Além de ter transformado o país em uma ditadura populista e com grande probabilidade de transformar o conflito social e político em guerra civil, sem nos esquecermos que teve o apoio dos governos Lula e Dilma, esse governo não vai sair de lá por qualquer meio democrático. E precisamos perguntar qual é o papel dos Estados Unidos nessa história.

Maior importador de petróleo venezuelano, nada tem a receber do Maduro. Ao contrário, se eles fornecem petróleo em dia e com bons preços, tudo está perfeito. Mas até quando o governo Trump, que conta com um executivo da indústria petroleira, que inclusive teve um enorme conflito com o governo Chávez e conhece o país, vai olhar isso com calma?

E se em um momento de mau humor ele diz basta, comigo ninguém brinca, e manda resolver tudo na marra, para dar exemplo de que os Estados Unidos continuam a grande potência que manda na América Latina? Governos muito mais racionais do que este de Trump invadiram Granada - ninguém mais sabe onde fica - e pegaram a laço o presidente narcotraficante Noriega, no Panamá. E ficou por isso mesmo.

Nessa história, a declaração dos chanceleres dos países do Mercosul (fundado há 25 anos no governo Itamar Franco, em Ouro Preto, Brasil, que preside o bloco agora), Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, suspendendo a Venezuela do bloco agora, mas deixando as portas abertas para o diálogo, é um sinal de bom senso e uma procura de uma solução pacifica.

A diplomacia brasileira voltou a liderar o processo, difícil, mas único possível para uma solução que evite derramamento de sangue e traga a Venezuela de volta à comunidade dos países democráticos.

Um caminho árduo, pois Maduro também é apoiado pelos chineses que lhe dão suporte financeiro e adquirem suas reservas petrolíferas, quer ser herói nacional e entrar para a história como defensor de um regime falido que empobreceu o país e o levou para a guerra civil. E nessa história, nem falamos dos militares venezuelanos, hoje treinados pelos cubanos. Em resumo, um futuro bem complexo e ruim para nós, vizinhos daquele país.

* Consultor empresarial, ex-presidente do Sistema Fiemg e Sebrae MG.
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