26 de julho, de 2017 | 16:56

Enquanto aguarda propostas, Ney Franco prepara abertura de sua academia nos EUA

Arquivo/Wôlmer Ezequiel
Ney Franco está focado atualmente na abertura da NF Soccer Academy, em Orlando, nos EUA, e na sua carreira em algum clube do Brasil ou do exteriorNey Franco está focado atualmente na abertura da NF Soccer Academy, em Orlando, nos EUA, e na sua carreira em algum clube do Brasil ou do exterior
Ney Franco esteve recentemente em Ipatinga, onde reviu amigos, familiares e visitou o Ipatinga Futebol Clube. Aproveitou para falar de sua carreira e de seus projetos ao Diário do Aço, enfatizando que está focado em duas frentes: a abertura, em setembro, da NF Soccer Academy, em Orlando, estado da Flórida - EUA, e da sequência de sua carreira em algum clube do Brasil ou do exterior, provavelmente na China ou no mundo árabe.

Ney, de 52 anos, que ficou o ano de 2016 dedicando-se somente aos estudos de inglês, confirmou que a família - esposa e dois filhos - se mudou em definitivo para os Estados Unidos, onde os quesitos básicos de educação e segurança trazem a tranquilidade necessária para seguirem seus projetos de vida. Confirmou sondagens de clubes brasileiros, considera a carreira de treinador interessante e falou do desfecho do famoso episódio com Rogério Ceni quando ele treinou o São Paulo.

Lembrou também dos bons tempos em que treinou a seleção brasileira de base, quando teve nas mãos os melhores jogadores com os quais trabalhou. Relembrou o sucesso do Ipatinga, clube pelo qual nutre forte simpatia e desejos de que ressurja como uma força do futebol mineiro. Elogia dirigentes polêmicos, como Zezé Perrela e Mário Celso Petraglia, eterno manda-chuva no Atlético-PR.

DA - Como que está a vida do Ney Franco após essa última passagem no Sport Club do Recife?
Ney Franco - Bom, primeiramente, eu tive essa oportunidade de passar pelo Sport, uma das grandes equipes do futebol brasileiro. Fiquei pouco tempo lá, peguei o clube em um momento que a gente tinha uma sequência de jogos de quarta e domingo.

Consegui colocar a equipe em duas finais, uma de campeonato estadual e outra da Copa do Nordeste; infelizmente, a gente perdeu a final da Copa do Nordeste. E como hoje faz a maioria dos clubes brasileiros, a diretoria, em alguns momentos muito influenciada pelas redes sociais, optou por fazer uma troca de treinador em um momento que estavam chegando alguns reforços que tínhamos pedido.

Mas são águas passadas, e no momento eu estou com um projeto nos Estados Unidos, que é a formação de uma academia de futebol. Estive em Ipatinga com a família passando um tempo de férias junto com meus filhos (Filipe e Eduarda), mas ao mesmo tempo a gente sabe que, a qualquer momento, pode retornar ao mercado. Teve uma sondagem antes de assumir o Sport, do Coritiba. Depois que saí do Sport, tive uma sondagem para assumir o Goiás na série B, e optei por não pegar nenhuma equipe.

Meu planejamento é, ano que vem, voltar com uma equipe no início de temporada. A princípio, eu penso voltar ano que vem, mas logicamente a gente não pode abrir mão de oportunidades, e como a cultura do futebol brasileiro é a troca de treinador, a cada rodada tem uma ou mais quedas, a gente está aí em alguns momentos e escuta umas propostas. Se aparecer alguma coisa interessante na temporada ainda, posso voltar a trabalhar, mas o pensamento e o planejamento é voltar ano que vem.

DA - Como é esse projeto da Academia de Futebol em Orlando?
Ney Franco - A academia se chama NF Soccer Academy, em Orlando. Meu objetivo principal, além de preparar alguns jogadores, é a formação de atletas para jogar nas Universidades dos Estados Unidos. É uma oportunidade de fazermos uma parceria do futebol com a escola de inglês também, nós vamos receber alunos brasileiros e do mundo todo, para que a gente possa preparar esses alunos, oferecer o futebol e, ao mesmo tempo, garantir o curso de inglês.

Sabemos que, estudando no mercado, tem muita família sem condição hoje de colocar o filho em uma universidade americana e o estudo lá é um estudo muito caro. Aí, quem pratica algum esporte consegue em alguns momentos bolsas integrais. Temos, então, esse objetivo de preparar estudantes na escola de inglês e, ao mesmo tempo, oferecer-lhes a oportunidade de jogar o futebol e que esse aluno consiga uma bolsa para estudar nas universidades jogando futebol.

DA - Como você conciliaria essa manutenção da sua academia de futebol nos EUA com possíveis propostas do Brasil e de outros países?
Ney Franco - Eu tenho dois sócios no projeto, ligados ao futebol também. Um é Alexandre Malimpensa, que foi jogador das categorias de base do São Paulo e tem uma rede de postos de gasolina nos EUA, e o outro é Marcelo Totó, que também é empresário em São Paulo, franqueado de alguns restaurantes.

São pessoas que também gostam de futebol. E a gente vai contratar, estamos criando a nossa metodologia de treinamento, preparando alguns professores para, na minha ausência, desenvolverem o trabalho e para não ficarmos na dependência, porque queremos expandir o trabalho no território americano. Com esses profissionais posso continuar exercendo minha profissão, que é ser técnico de futebol.

DA - Houve um boato de bastidores de que você talvez não quisesse seguir a carreira de treinador e optasse por essa nova profissão na sua academia, o que tem de verdade nisso?
Ney Franco - Não, na realidade, não. Inclusive, até para a academia é interessante eu continuar na minha profissão para dar visibilidade do treinador conhecido no Brasil. Eu também tenho trabalhado com meu nome fora do país, uma possibilidade de trabalhar no mercado chinês ou no mundo árabe, o que seria muito interessante para a academia.

Temos a intenção de conseguir expandir o nome nesses países, que têm tradição das famílias mandarem o filho estudar nos EUA. É interessante para o projeto que eu continue na profissão. Então o meu objetivo é esse, eu pretendo inaugurar a academia no dia 1º de setembro.  Assim, no início da temporada seguinte, já deixaria as coisas funcionando, de forma que em 2018, assumiria um clube no Brasil ou fora do país para continuar minha carreira.
 
DA - O treinador ganha bem pelo nível de cobrança, ou depende da situação? Como que você avalia a profissão de treinador?
Ney Franco - Quem consegue passar por esse caminho, se formar bem na base, se preparar e conseguir chegar a uma equipe da série A do futebol brasileiro, assim como eu cheguei, só posso dizer que é uma boa profissão. Trabalhando em grandes clubes, você tem um bom salário.

É uma carreira, tirando essa questão econômica, embora de muita pressão, muito boa, que te dá oportunidades de conhecer vários lugares, de conhecer muitas pessoas. É uma carreira valorizada, então eu, particularmente, me sinto muito satisfeito e muito realizado profissionalmente por essa carreira que escolhi, independentemente das questões econômicas ou demais coisas que acontecem no desfecho de algum trabalho nos clubes.

DA - As demissões são atinentes à pressão do futebol, você considera assim? Embora muitas vezes injusto, é natural o treinador “cair”?
Ney Franco - A cultura brasileira é essa, a gente cresceu nessa cultura. Embora hoje exista uma movimentação de se tentar regularizar essa situação do treinador, que é muito desgastante, não só para o treinador,mas para a família, de ter que acompanhar e mudar toda a sua estrutura de uma cidade para outra e ficar no clube três, quatro ou cinco meses apenas.

Então, eu acho que nós estamos em momento em que o futebol brasileiro está sendo repensado em todas as suas esferas, principalmente, está sendo repensado nessa questão do treinador. A classe está procurando uma possibilidade de ter por lei uma garantia maior de trabalho, e logicamente isso está no início, mas espero em um futuro breve que essa relação clube e treinador de futebol possa ser um pouco melhor.

Sabemos que o insucesso de um clube de futebol não é devido apenas à qualidade do treinador, em alguns momentos o clube é deficitário em alguma parte da sua estrutura e, na maior parte dos casos, a responsabilidade acaba caindo em cima de apenas um treinador. Mas acho que, aos poucos, essa mentalidade vai mudar e o treinador vai ter um tempo maior nos clubes para exercer sua profissão. Em cima do treinador é depositada a derrota, eu acho que quando ganha, se ganha devido a tudo, a estrutura do clube, à qualidade dos atletas, somatório de fatores.

 DA - O treinador ganha jogo e perde jogo?
Ney Franco - Eu acho que o treinador ganha jogo, já vi treinador competente ganhar jogo, porque não adianta ter apenas talento dentro do campo, se você não tiver uma boa estratégia, uma boa temporada, uma boa semana de treinamento, usando os melhores jogadores, ter a qualidade de tomar algumas decisões dentro do jogo. Eu sou da política de que treinador ganha jogo em alguns momentos, e principalmente ganha campeonatos, que é a capacidade de liderar um grupo de atletas durante uma temporada inteira e ganhar títulos.

DA - Quais são os melhores jogadores que você já trabalhou em termos de qualidade técnica?
Ney Franco - Por eu ter passado pela seleção brasileira sub-20, trabalhei com uma geração muito forte, atletas como Neymar, que hoje é o top, o Lucas que está no PSG, Casemiro no Real Madrid, Danilo que é lateral e estava no Real Madrid, Alexandro do Juventus da Itália, Jefferson, goleiro do Botafogo, Dudu do Palmeiras. Então, eu acho que já trabalhei com muitos bons jogadores. Citei alguns, mas certamente me esqueci de outros ótimos nomes.

DA - Você pode elencar bons dirigentes com quem já trabalhou?
Ney Franco - Eu já trabalhei com muitos bons dirigentes, entre eles o Mário Celso Petraglia, no Atlético-PR, eu gosto muito do jeito dele trabalhar. O Juvenal Juvêncio, no São Paulo; foram pessoas que realmente assumiram a responsabilidade, são diretos, você sabe que é com ele que você decide as coisas. O próprio Kleber Leite, no Flamengo, para mim foi o maior dirigente com quem eu já trabalhei até hoje.

Embora eu não tenha trabalhado no profissional, mas o Zezé Perrela, no Cruzeiro, também me marcou na época. Eu tive uma experiência muito boa com o Zezé Perrela. Aqui no Ipatinga, o presidente me deu toda estrutura para eu me apresentar para o futebol brasileiro, principalmente o mineiro, que foi o Itair Machado, um presidente que me deu todo o suporte para desenvolver aquele projeto vitorioso.

DA - Qual título te deu maior emoção, além do mineiro de 2005 pelo Ipatinga, que eu penso que tenha sido muito marcante?
Ney Franco - Eu penso que cada título tem a sua história. Aquele título pelo Ipatinga em 2005 foi marcante, em cima do Cruzeiro no Mineirão. Ali eu mostrei o meu cartão de visita. O futebol mineiro e o futebol brasileiro acabaram conhecendo o Ipatinga e eu mostrei também o meu trabalho. Logo depois, veio o título da Copa do Brasil com o Flamengo. Acho que foi muito importante, teve um peso muito grande na minha carreira.

Dois títulos muito importantes também, o Sul-americano e o Campeonato Mundial com a seleção brasileira sub-20, com aquela geração que tinha Oscar, Neymar, Lucas, Casemiro, Danilo, Dudu, Henrique (atacante do Coritiba), Willian José, Luan (zagueiro da Inter de Milão). Então, todo título tem o seu valor, meu título pela Copa Sul-americana também com o São Paulo, em 2012, quando tinha quatro anos que o clube não ia para a Libertadores. Esses títulos são muito marcantes. É difícil a gente elencar qual título é o mais importante.
 
DA - E o episódio com o Rogério Ceni?
Ney Franco - O problema com o Rogério foi um problema a princípio simples, na época que eu trabalhava no São Paulo. Quando eu saí do São Paulo, teve uma declaração dele que a imprensa explorou bem e eu retruquei depois. Mas hoje não tem nada, eu já me encontrei com ele depois disso. Isso já passou.

Ele teve a experiência agora de ser treinador. Acho que tem tudo aí para vingar, ser um dos grandes treinadores do futebol brasileiro. Agora que ele teve essa experiência no São Paulo, vai ter oportunidades em outros clubes. Ele tem potencial, pegou uma experiência maior, será um bom treinador do futebol brasileiro.

DA - E o futuro do Ipatinga FC, o que você pensa? Como que deve ser essa retomada?
Ney Franco - Primeiramente, estarei de longe torcendo. Eu estive aqui agora passeando em Ipatinga, e além de visitar amigos e familiares, visitei o clube. Na frente do clube está o Cristiano Araújo, uma pessoa muito comprometida. Voltou agora o Amarildo Ribeiro, que também na época que eu trabalhei aqui em 2005 e 2006, estava como diretor de futebol. Tem um treinador muito respeitado no futebol mineiro, o Wantuil Rodrigues, que eu tenho certeza que vai fazer um trabalho excelente.

Temos alguns alguns jogadores remanescentes de 2005, como o Kanu e o Luizinho. Na comissão técnica, o Mancuso. Então, eu espero que o Ipatinga possa de novo se reencontrar, se reestruturar. Primeiramente, sair da 3ª Divisão e voltar rápido para a série principal do Campeonato Mineiro. E depois, dentro das competições do Brasileiro, possa voltar porque acho que isso faz um bem enorme para a região do Vale do Aço, que é uma região apaixonada por futebol e, com certeza, o Ipatinga faz muita falta. E é muito legal você ter os fins de semana com jogos do Ipatinga no Ipatingão.

DA - Sobre seus investimentos?
Ney Franco - Tenho alguns investimentos pequenos em Ipatinga, Belo Horizonte e São Paulo, mas por enquanto não tenho condições de comprar fazenda, não (rsrs).
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