19 de julho, de 2017 | 11:31
Da Cemig e das estatais mineiras
Stefan Salej
A Cemig foi fundada na década de 50, no governo de JK, para acelerar o desenvolvimento mineiro, cujo calcanhar de Aquiles era a energia, na época em mãos de uma empresa norte-americana. Desde o início, o fundamento da empresa era o alto padrão técnico e ético. A Cemig foi o alicerce do desenvolvimento de Minas Gerais, tanto em termos de desempenho empresarial quanto no de assistir a economia mineira para crescer na base industrial e pecuária.Alcançou as fazendas, as indústrias e as residências. O padrão Cemig de qualidade era reconhecido no Brasil inteiro. E assistiu o crescimento de uma indústria elétrica competente, que foi globalizada desde o seu inicio. Seus quadros, como João Camilo Penna, Mario Bhering e Paulo Mafra, entre outros, alcançaram altos cargos da República e fizeram tanto da Eletrobras como de Furnas símbolos de eficácia energética.
Requer uma análise e reflexão profundas a corajosa entrevista do presidente da Cemig, Bernardo Alvarenga, à Radio Itatiaia, expondo as dificuldades da empresa em honrar seus compromissos financeiros, pesados e quase impagáveis, uma empresa composta por 200 alianças empresariais e subsidiarias, além de ter um sócio privado que acabou de fazer acordo de leniência, e com acionistas em 45 países e cotada na bolsa de Nova Iorque.
Não só dos acionistas da empresa, mas de toda a sociedade e, em especial, do principal acionista, que é o povo de Minas Gerais, representado pelo seu governo. Dificuldades da Cemig são dificuldades de Minas, tal a importância da empresa no Estado.
E isso sem entrar em detalhes históricos que levaram a essa situação, como quando a construção de uma usina teve um aumento estúpido de custos e os jornalistas perguntaram por que, e um diretor da empresa respondeu que foi porque havia uma inflação em dólar e ai os custos aumentaram 400%. Uma das razões dessa situação é que os políticos substituíram os técnicos, com diretores de materiais ou os de distribuição elegendo-se deputados, sendo estes os que angariavam votos no interior.
Outra, que se fez uma aliança entre interesses privados de grupos industriais e de engenharia, troca-troca de cargos (presidente da empresa ou diretor ajudava ao fornecedor, em seguida aposentava, virava sócio da empresa e assim por diante) além de que, quando se fez a tal de privatização, inicialmente com um grupo norte-americano (onde teve gente que ganhou muito dinheiro com especulação com as ações) e em seguida com um grupo de engenharia mineiro, fez-se um acordo para ganhar dinheiro, e não para desenvolver a empresa, que entrou em novas alianças, entre elas a Light do Rio (da qual fugiram todos os demais investidores, como os franceses) e inúmeras outras, que contribuíram para que todos ganhassem e a Cemig perdesse.
Não se pode desprezar nesse processo o papel do INDI, financiado entre outros pela Cemig, e nem a questão da concessão de usinas, que está se tornando uma disputa crucial com o governo federal. O Presidente da Cemig está certo quando convoca todos os mineiros a ajudarem a empresa a voltar a ser de excelência para o desenvolvimento mineiro. Mas precisa de mais do que de um apelo e de desinvestimento, como a venda da Light: precisa de um plano consensual de reestruturação e compliance.
Com os mesmos atores dominando a estrutura da empresa, seja societária e gerencial, sejam beneficiários externos, não haverá mudança que garanta resultados. A atual diretoria tem condições de fazer isso, mas os políticos e o governo do estado também têm que fazer sua parte. E mais: o setor privado também tem que entender o papel da Cemig, como agência de desenvolvimento e empresa de excelência, além dos ganhos individuais e da salvação de seus próprios negócios. Aí sim poderemos voltar às origens da empresa e ganharão todos.
* Consultor empresarial, ex-presidente do Sebrae-MG e da Fiemg.
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