22 de março, de 2017 | 10:13

Tentações da Carne

Sérgio Orlando Pires de Carvalho

Divulgação
Fomos surpreendidos, na última sexta-feira (17), com o estardalhaço da “Operação Carne Fraca”, da Polícia Federal. Porém, todos os profissionais envolvidos nos programas de qualidade dentro das empresas sabem que é preciso segregar, inspecionar, rastrear lotes e todo o processo de produção para identificar onde está o problema e estabelecer os pontos de correções e de melhoria.

Longe de defender os empreendimentos citados pela PF, é preciso dizer que foi inadequado o modo de divulgação da comercialização de produtos estragados, vencidos, maquiados etc., de forma generalizada. Ao fazer isso, acabou-se por atingir toda a cadeia produtiva do agronegócio. Certamente, isso não ocorre na totalidade da produção brasileira de proteína animal, cuja participação no mercado internacional é intensa, como intensas também são as inspeções de qualidade dos produtos consumidos internamente e aos produtos destinados à exportação.

É preciso notar ainda que, durante a longa investigação da Policia Federal, também devam ter sido constatadas as boas práticas do setor, o que, essencialmente, deveria também vir a público.

Outro ponto importante é que a comercialização de carnes, tanto no mercado interno quanto no mercado externo, é de fundamental importância para a economia brasileira; o que coloca em cheque não somente a credibilidade das unidades frigoríficas, como também de todo o trabalho desenvolvido da porteira para dentro das fazendas, uma vez que um crime dessa proporção pode fechar mercados internacionais, diminuindo os índices de consumo da carne brasileira.

Por outro lado, será preciso que a Polícia Federal de fato vá ao fundo com as investigações, pois a indústria brasileira de carnes atingiu, nas últimas décadas, um elevado nível de segurança e qualidade em suas operações, sendo admirada e reconhecida internacionalmente.

Os padrões de biosseguridade (cuidados sanitários), os avanços genéticos e a atenção extrema à sanidade e ao manejo fizeram de nossa produção agropecuária uma das mais seguras de todas as cadeias produtivas, graças ao empenho e profissionalização dos produtores rurais e aos intensos e contínuos investimentos das agroindústrias.

As indústrias brasileiras de carnes, principalmente as de aves e suínos, adotam o que há de mais avançado em máquinas, equipamentos, processos e recursos tecnológicos, assegurando alimentos cárneos confiáveis e de alta qualidade. Problemas existem, sim, e o país não estará livre deles no curtíssimo prazo, sendo que muitos deles se apresentam escamoteados.

Assim, a JBS ocupa o centro do noticiário por razões óbvias, sendo uma gigante nacional e internacional do setor e um dos grupos que mais fizeram doações para as campanhas eleitorais, portanto, íntima das linhas de financiamento do BNDES nos governos passados.

Dentro deste quadro, pode-se verificar um destino sombrio para os gigantes criados na era petista, que teve como prática a ajuda estatal. Neste sentido, a Odebrecht, que já era grande, assumiu dimensão ainda maior; o BNDES cedeu recursos para que a Telemar comprasse a Brasil Telecom de Daniel Dantas, e, portanto, criasse a OI, e todos sabemos como anda a OI. E o caso mais espetacular de todos: a injeção de recursos cedida pelo BNDES ao empresário Eike Batista, que deu no que deu e todos sabem muito bem o que aconteceu com ele.

Assim, não dá para ignorar que as evidências de relações não republicanas vieram se multiplicando, desde 2003, com a criação do chamado Capitalismo de Estado, com suas múltiplas faces distintas e combinadas, onde as empresas estatais, obviamente, fazem parte e estão no centro do escândalo do “petrolão”, alvos de investigação cerrada da Operação Lava-jato.

Estudiosos sabem que este modelo de Capitalismo de Estado, com a eleição de amigos do rei e a participação de conglomerados em sociedade com o poder político, está muito mais para economias de regime fascista do que para um regime liberal. Desse modo, repudia-se o estado regulador (liberal) para se tornar o estado sócio do capital privado com seus anéis burocráticos, onde os fiscais formam um deles, criando os seus próprios círculos de burla e interesse.

E desta maneira, as corporações vão se fechando dentro do estado, tornando os empreendedores dependentes das tetas do governo e vice versa.

* Economista, MBA Executivo em Gestão Empresarial, PG em Administração de Empresas e Organizações, PG em Metodologia do Ensino Superior, Consultor Econômico-Financeiro e autor dos Livros “Economia & Administração” e “Guilhermina de Jesus e a Família Brasileira”. E-Mail: [email protected]. Blog: http://zaibatsum.blogspot.com.
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