02 de fevereiro, de 2017 | 16:22

Viva o Povo Brasileiro: Problema ou Solução?

Beto Oliveira

Nossos ouvidos parecem já acostumados a receber coisas como “o problema do brasileiro é o brasileiro”, ou então, “o problema do Brasil é o povo”. Logicamente que quem profere essas frases não se inclui no tal problema. O inferno são os outros, disse Sartre; e alguns acham que podem concluir: então, o paraíso sou eu. Nessa ilusão auto paradisíaca sempre houve um grupo que se achava dono do Brasil e que não se cansou de dizer que o inferno brasileiro, a culpa por não sermos uma imensa potência, é o povo.

No início eram os índios os principais culpados. Chamados de indolentes, avessos ao trabalho, esse pequeno grupo “dono” do Brasil (que começou com os empresários do açúcar, depois do ouro, mais tarde do café, do algodão, da indústria, dos bancos, das empreiteiras etc.), pensava que o problema eram os nativos e, por isso, a necessidade de trazer negros fortes e trabalhadores. Não tardou muito, o negro passou a ser o responsável pelo não desenvolvimento do Brasil, chegando ao cúmulo de o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB), após a abolição da escravidão, propor uma política oficial de branqueamento da população como saída para o país. Essa proposta do IHGB resultou em um movimento de imigração que acolhia mão de obra branca e desprezava os negros locais, o povo, o “problema” do Brasil.

E assim percorremos a história com um pequeno grupo desprezando o povo brasileiro enquanto se excluía dessa condição de povo. O povo é o outro, todos os brasileiros, menos eu e uma pequena exceção. Nelson Rodrigues capturou esse espírito nos anos 50 através do bordão “complexo de vira-lata”.

E seguimos repetindo a cantilena que nos levou a entregar tanto patrimônio aos Portugueses, Ingleses, Alemães e Americanos. Ainda nos anos 50, JK investiu pesado na modernização do Brasil e na fabricação de automóveis. Porém, não pensou que o Brasil merecia o mesmo investimento das empresas alemãs, por exemplo. Afinal, o povo brasileiro, né...

E ainda hoje algumas pessoas defendem que o Brasil não teria tecnologia suficiente e que o máximo que alcançaríamos seria o tenebroso Gurgel, quando, já na década de 1960, com adequado investimento criamos a Embraer. E se tínhamos tecnologia para produzir avião, por que não teríamos para produzir carros? O problema é o povo brasileiro ou os investimentos e incentivos?

Olhemos por outros ângulos e talvez descubramos que o povo é a solução, e não o problema da nação. Mesmo sendo o último país da América Latina a investir em uma Universidade (só em 1920, enquanto a 1ª fora em 1538, no Peru), hoje o Brasil contribui mais do que muitos países na participação científica do mundo e ocupa melhor posição no ranking continental. Nas artes os investimentos também foram mínimos e, entretanto, tivemos a Bossa Nova, Cândido Portinari, Heitor Villa-Lobos, e o cinema brasileiro é hoje competitivo. O Nordeste foi devastado pela monocultura do açúcar, fazendo com que um lugar proferido por Caminha como uma terra em que “tudo dá” virasse um terreno de secas. Mesmo assim o Nordeste nos deu intelectuais, artistas, investidores etc.

Se o Brasil de fato é um país atrasado, o último das Américas a abolir a escravidão, o único das Américas que, no final do século XIX, ainda era monárquico, o país que em plena revolução industrial inibiu a indústria têxtil para proteger o monopólio do café, o país que em um ano marcado por reivindicações políticas (1968) implantou o A.I. 5, o país que aceitou ser mero fornecedor de matéria prima ao invés de tecnologia, não foi por causa do povo, e sim, apesar desse povo criativo e solidário. O povo não é o problema, é a solução, embora não deixe também de ser responsável pelo destino da nação.

* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço. Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.
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