01 de fevereiro, de 2017 | 13:46

A lição de Mário Soares

Aristóteles Atheniense

Na sua única vinda a Belo Horizonte, o ex-presidente Mário Soares foi recepcionado por expressivas figuras da colônia portuguesa, em evento realizado no Othon Palace. Convidado a comparecer àquele encontro, na condição de presidente da OAB/MG, com ele troquei impressões sobre o seu país. Impressionou-me o destemor daquele advogado corajoso, que assumiu a defesa da família do general Humberto Delgado, trucidado pela PIDE salazarista juntamente com uma brasileira, na fronteira com a Espanha.

Na porta do hotel havia um aglomerado organizado por João Pereira da Silva, gerente de João Champalimaud, que inaugurara uma indústria de cimento em Vespasiano. O grupo ostentava cartazes e promovia vaias de repúdio a Soares, pela posição que assumira contra o regime anterior.

Estava eu a caminho de Lisboa, quando soube da morte de Mário Soares, em 7 de janeiro. Também, em 2015, eu estava na capital lusa quando a esposa dele, Maria Barroso, faleceu.

Em 1974, com a eclosão da “Revolução dos Cravos”, Mário Soares retornou a Portugal, vindo a tornar-se Primeiro-Ministro (1976/1978 – 1983/1985) e, depois, Presidente da República (1985) em dois mandatos. Ele dizia que “só é vencido quem desiste de lutar”. Este foi o seu lema, tornando-se a mais importante figura da política de seu país, comparando-se a socialistas do porte de Mitterrand, Willy Brandt, Olof Palme e Harold Wilson.

O ex-presidente espanhol, Felipe González, deixou consignado no livro de condolências: “Soares vai ser sempre uma referência, e não só pelo seu pensamento político, mas por sua coragem, por sua paixão pela liberdade e pela justiça social”.

Pela segunda vez em dois dias, presenciei um carro de cavalos brancos desfilar pelas ruas de Lisboa com os restos mortais do político. O momento mais emotivo foi quando ele passou diante da sede do seu partido, onde uma multidão lançou flores vermelhas e amarelas sobre o féretro.

O carro, que partiu do Mosteiro dos Jerônimos, onde se celebrou o funeral, dirigiu-se ao Cemitério dos Prazeres. Mário Soares foi sepultado no nicho 3820, o mesmo em que se encontra a sua companheira Maria de Jesus Barroso, que gostava de rosas amarelas.

Advogado atuante na área Cível. Membro do Conselho Superior do Instituto dos Advogados de MG e do Conselho Superior do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB). Diretor da Associação Comercial de Minas.

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