Novos, frios, violentos e implacáveis

Crimes cada vez mais bárbaros, praticados por jovens, assustam até à polícia

Marcello Casal - Agência Brasil


crack usuários


FABRICIANO – Quando Delma Aparecida Silveira, de 46 anos, descobriu que o filho era dependente químico, há sete anos, ela ainda não tinha conhecimento sobre todos os tipos de drogas existentes no mundo, nem mesmo os seus formatos, composições e, principalmente, as reações adversas causadas.


Mas, há oito meses, Delma soube bem como é a dor de perder um filho de 21 anos, vítima do tráfico de drogas. “O crack roubou meu filho dele mesmo. Quando eu vejo tantos jovens bonitos e cheios de vida pelas ruas, eu tenho vontade de falar para cada um deles: não se envolvam com drogas, não experimentem o crack”, declara, com angústia. A dura realidade enfrentada pela mãe bate à porta de muitas outras famílias.


O filho da gerente de Saúde, Delma Aparecida, estava decidido a deixar de ser um usuário de drogas. Passou por algumas clínicas de recuperação e ficou mais de um ano sem se drogar.


O jovem tinha profissão, emprego, família, noiva e amigos. Porém, uma recaída fez com que ele deixasse o próprio par de roupas como garantia de pagamento em uma “boca” no bairro Pedra Linda, em Coronel Fabriciano. A família, até hoje, não sabe com precisão como tudo ocorreu. Segundo foi informado, o rapaz teria voltado para buscar uma bermuda que deixara como garantia, no dia 9 de abril deste ano, quando acabou executado.


Felipe Antônio Silveira Viana virou manchete nos jornais e foi incluído na lamentável estatística do município, atualmente com 34 homicídios praticados apenas em 2011. Boa parte desse número se refere a vítimas muito jovens e outros como autores. A maioria, com menos de 18 anos. Casos bárbaros, com pessoas executadas com frieza e crueldade não são exclusividade de uma cidade, ou de uma região, mas fazem parte de uma triste e preocupante rotina em todo o país.


O principal suspeito de ter matado o filho de Delma Aparecida ainda não completou 18 anos. Segundo ela, o próprio policial que esteve presente no local do crime sabia quem era o autor do crime, mas nada fez no momento da ocorrência. Passados tantos meses sem nenhuma ação das autoridades para apurar o crime, a mãe de Felipe sabe que nada deve acontecer ao autor do homicídio.


“A maioria dos crimes é praticado por jovens porque eles sabem que nada acontecerá. Eu não acredito que alguma coisa será feita pelo meu filho agora, mas eu queria alguma iniciativa pelos que ainda estão vivos e pelos amigos do meu filho que ainda não se envolveram com as drogas”, pontua.


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Silvia Miranda


Delma aparecida


Propulsor


O uso de drogas é apontado como o principal estimulante à prática de violência entre os jovens. O fácil acesso aos variados tipos de substâncias tem grande influência na violência, na opinião do delegado aposentado José Geraldo Lhamas, 68 anos. “Há 30 anos, a droga era coisa de rico, poucas pessoas tinham poder aquisitivo para consumir a cocaína. Hoje, com o barateamento, qualquer pessoa tem acesso a qualquer tipo de entorpecente”, avalia.


Depois de 34 anos dedicados à Polícia Civil, Lhamas defende uma prisão diferenciada para cada tipo de crime, com um acompanhamento específico para usuários de drogas. “Você não pode pegar uma cadeia e misturar nela um homicida, um traficante e um ladrão, porque isso se transforma em uma escola do crime. O sujeito entra como um ladrão de laranja e pode se transformar em um ladrão de carga”, compara.


Família


No seu papel de mãe, Delma afirma ter feito de tudo para a recuperação do filho. Buscou por tratamentos, casas de recuperação, pesquisou informações sobre os efeitos e as consequências do uso de drogas. As fotos expostas nos porta-retratos de casa revelam apenas que Felipe era um rapaz de família, com um sorriso largo no rosto e semblante de sonhos. “Apesar do crack, ele não se tornou violento e nem deixou de ser meu filho. Eu só não sei como mas, um dia, ele se perdeu”, lamenta.


Um dos pilares da sociedade, a família é citada por vários profissionais como o ponto central no combate à violência. Para Geraldo Lhamas, a falha na função da religião e a influência dos programas de televisão contribuem para a perda dos valores familiares. “A televisão influencia na perda desses valores, não é possível assistir televisão com filhos e netos sem ser bombardeado por conteúdos de violência e sexo”, condena. Ainda conforme Lhamas, a religião deveria trabalhar mais as questões e os conflitos familiares.


Silvia Miranda


Geraldo Lhamas


Inaplicável


Para o delegado aposentado, o Estado criou um estatuto muito avançado para o País e o poder público não consegue aplicar as normas, a começar pela carência das instituições encarregadas da aplicação das penas. “O jovem hoje sabe que é impune. Então, o sujeito que quer matar uma pessoa simplesmente oferece quatro pedras de crack para um menor de 18 anos, dá uma garrucha velha pra ele e o menino comete um crime pelas costas”, explica.


Com sua experiência na área criminal, o ex-delegado Geraldo Lhamas revela a causa do medo em lidar com jovens. “O policial tem medo de lidar com jovens, porque se um menor de 18 anos matar ou ferir um policial, não acontece nada com ele. Mas, se um policial desferir um tapa no jovem, ele é condenado por crime de tortura, perde o emprego e a sua família vai para a miséria. Nenhum policial gosta de prender ou lidar com jovens. Ele tem medo” confessa.


 “Vivemos uma crise de convivência social”

Baixo investimento em políticas públicas agrava o quadro de violência


FABRICIANO – O quadro de violência que envolve menores de 18 anos, como vítimas ou com autores, tem inquietado diversos segmentos sociais, inclusive o meio acadêmico. O assunto foi tema de um recente encontro regional, promovido em Coronel Fabriciano pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre a Existência (Griepex), fundado pelo psicólogo Hudson Miranda de Oliveira.


Um dos entendimentos do Grupo é que a falta de espaços públicos para a convivência social entre jovens é um dos agravantes. “Os atuais investimentos para o esporte, cultura e educação não são suficientes e logo existe um gargalo pela falta de garantia de empregos. Há uma ausência de perspectiva para os jovens”, analisa.


Silvia Miranda


Hudson Miranda


Somado à falta de convivência social, o psicólogo avalia que a privação dos jovens pelo convívio da família agrava a formação crítica. “As pessoas são submetidas a uma pressão muito grande no trabalho e em todo meio onde vivem, para um consumo de ideias que não levam a uma reflexão da sociedade, mas para um modelo capitalista de consumo”, avalia. Aqueles que não conseguem atingir o modelo capitalista sugerido pela sociedade acabam tomando o caminho da violência como refúgio.


Segundo Hudson Miranda, a solução para a crise que envolve a juventude não será encontrada num passe de mágica. Será preciso um investimento sério para o acesso das novas gerações à cidadania. “Quando você pega jovens violentos e os expõe ao caminho da música, do esporte, da literatura, da expressão, da visibilidade, reconhecimento e dá voz para esse jovem, de forma a garantir uma perspectiva de trabalho, a violência não permanece”, enfatiza.


Ainda conforme o psicólogo, a questão social é apenas um fator condicionante para o problema da violência. “As pessoas podem dizer que isso tudo está muito ligado à condição social. Isso, na verdade, é um mito porque, há muitos crimes cometidos por filhos de classe média devido ao vazio e a cobrança por uma boa atuação na sociedade” aponta.


Wesley Rodrigues


Cesar pereira dos santos delegado advogado


Permissividade além da conta


Os valores da família e religião também são apontados como fatores de peso no aumento da violência juvenil pelo ex-delegado da Polícia Civil César Pereira dos Santos, um experiente agente que lidou anos a fio com o mundo do crime em Ipatinga e que, hoje, atua como advogado. “A família perdeu suas tradições de união e a religião está cada vez mais distante. Os filhos não acompanham os pais”, resume.


Ainda segundo César Pereira dos Santos, a permissividade tem transformado o perfil dos jovens. “Hoje os pais permitem que os filhos façam tudo sem nenhuma cobrança. A mudança no perfil da sociedade e na rotina dos pais contribui para essa libertinagem. Nenhum policial gosta de prender ou lidar com jovem, ele tem medo. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que nenhum adolescente será privado de sua liberdade sem o devido processo legal”, detalha o delegado aposentado.


Conforme Santos, caso seja comprovada a prática de ato infracional por um menor de 18 anos, uma das aplicações permitidas é a internação em estabelecimento educacional. Ocorre que, no Vale do Aço, o citado “estabelecimento educacional” não existe e aos menores de 18 anos cabe apenas a impunidade.


Entre os casos recentes que exemplificam essa situação, ele citou os três adolescentes que, no dia 25 de novembro, confessaram o latrocínio – roubo seguido de morte - a golpes de tesoura e pauladas, de um aposentado de 56 anos em Ipatinga. Após a confissão feita às autoridades, os adolescentes foram liberados.


Além da falta de uma instituição apropriada para abrigá-los, no cumprimento das medidas socioeducativas, eles foram apreendidos fora do prazo do flagrante do homicídio. Mas a falta de um Centro de Internação para Adolescentes (CIA), teve um peso extra na liberação. Dada à brutalidade como o crime foi cometido, a alternativa seria levá-los para uma cela especial no Ceresp, um encaminhamento ora vetado, por decisão da Promotoria de Justiça da Infância e Adolescência. (SM).


 



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