“Matar o criminoso e salvar o homem”

Método Apac propõe mudança radical no cumprimento de penas

Wellington Fred


apac itaúna


ITAÚNA - Um lugar onde você é recebido com um singelo “seja bem-vindo”. Seria normal a saudação do recepcionista, se ele não fosse um preso a atender à porta. E pasme! O apenado tem as chaves do portão de entrada da “cadeia”.


É esse o cenário encontrado pelas pessoas que visitam a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) de Itaúna, município com mais de 80 mil habitantes e distante cerca de 300 quilômetros de Ipatinga (80 Km de Belo Horizonte), pioneira na implantação do método Apac em Minas Gerais, apontada como modelo.

 


O DIÁRIO DO AÇO fez parte de uma comitiva, que visitou a Apac de Itaúna na sexta-feira (18), composta por cerca de 30 pessoas de Timóteo, Ipatinga e Coronel Fabriciano, municípios que pleiteiam, há anos, a adoção desse método para desafogar os presídios da região e dar uma chance para os que estão “fora da lei”.


“O objetivo da Apac é recuperar, promover a justiça, socorrer a vítima. É matar o criminoso e salvar o homem. No dia a dia, o criminoso está sendo apagado em minha vida”, disse Diego Calíquio, o recepcionista do grupo.

 


Diego é condenado por um crime contra a vida e evitou falar sobre o ocorrido, cuja pena, segundo ele, só vai se extinguir em 2017. “Aqui entra o homem, o delito fica lá fora”, lembra a frase que está na entrada dos regimes semiaberto e fechado. A Apac é uma cadeia na sua concepção, mas que funciona totalmente diferente das comuns.

 


O local não tem policiais ou agentes penitenciários. Quem toma conta dos 156 presos masculinos nos regimes fechado, semiaberto e aberto são os próprios reclusos, além de alguns voluntários da sociedade, como dentistas, psicólogos e o presidente da entidade, que também é voluntário e não tem salário.

 


Há, ainda, para o funcionamento administrativo da Apac, os funcionários remunerados. Alguns são ex-internos, como o padeiro que prepara novos profissionais para o ofício. A padaria fornece produtos para consumo próprio e ainda atende à comunidade. Em outra sede, funciona a Apac feminina de Itaúna com 23 mulheres internas, nos mesmos moldes de funcionamento do setor masculino.


Wellington Fred


recuperandos apac itauna
  Socializador

O dia na Apac começa às 7h, com a oração da manhã, o primeiro ato socializador. Depois, cada um prepara o seu afazer na entidade, respeitando o seu local de regime: quem está no fechado, só fica na ala exclusiva desse grupo e assim por adiante.


Há oficinas nos diversos setores da associação, desde autopeças até a preparação de enfeites para calçados. Uma horta própria abastece a cozinha, onde os presos se alimentam com a refeição feita pelos internos.


Segundo Daniel Henrique, 23 anos, os presos que chegam à Apac, recebem apoio do Conselho de Sinceridade e Solidariedade (CSS), um órgão interno que auxilia a administração.


“É o que fala na metodologia, a primeira é a aceitação dos meus erros e que precisava de uma ajuda. Nunca mais eu vou valar que mudei de vida, pra sempre eu vou mudar, pra sempre um recuperando”, contou Daniel, que está no regime fechado e afirma que o sistema prisional comum não leva ninguém a nada. “Só à cadeia e à morte”.


Na Apac, a reportagem do DIÁRIO DO AÇO viu a organização em todos os setores, com placas de mensagens lembrando sempre os internos da situação deles. Outro detalhe observado na ala dos presos no regime fechado, com 16 celas, é que as celas são totalmente limpas e há ainda uma premiação para a mais organizada, ou até a menos organizada – “premiada” com um porquinho -, o recuperando mais prestativo e outros detalhes organizacionais do setor.


Não há superlotação, como nas outras cadeias, e todos os reclusos têm a sua cama. Na Apac, todos tomam conta de todos e fiscalizam para que as regras sejam respeitadas. Há faltas graves, como chegar embriagado (descoberto com bafômetro), uso de celular, uso de drogas, tentativa de fuga ou agressão. Quem cometer algumas destas faltas pode sair da Apac e voltar ao sistema convencional.


Wellington Fred


valdeci fundador apac
Descoberta

Valdeci Antônio Ferreira, o fundador da Apac de Itaúna, hoje presidente da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (Fbac), entidade que congrega todas as Apacs, participou do encontro com a comitiva do Vale do Aço. “Descobri o método atrás de uma bibliografia e da experiência realizada em São José dos Campos (SP). Com o apoio da comunidade, trouxemos o método para Itaúna”, disse Valdeci.


Fundada em 14 de julho de 1997, a Apac de Itaúna sofreu dificuldades para ser implementada na cidade. “Não faltaram dificuldades no nosso caminho e não faltam. Trabalhamos com aqueles que são considerados a escória da sociedade. O preconceito, na nossa cultura, sugere que o preso tenha que sofrer e até morrer. Não vamos mudar a cultura em dias e anos. Às vezes, são necessárias décadas ou séculos para mudar nossa cultura”, pontuou.


Já são mais de dois mil presos se recuperando em Minas Gerais nas Apacs instaladas. Ele apontou que, para funcionar uma Apac, é necessário um salário mínimo e meio por cada indivíduo. Já com um preso no regime convencional, o Estado gasta cerca de quatro salários mínimos. Ele apontou outro detalhe na palestra. Para se construir uma Apac, gastam-se cerca de R$ 2 milhões. Já um presídio para 300 presos exige investimento de R$ 17 milhões. Esse será o custo de um novo presídio na própria região de Itaúna, informou o dirigente.


“Estamos mudando esta cultura e apresentamos ao Estado uma alternativa para cuidar da recuperação daqueles que cumprem pena e devolvê-los preparados para a sociedade”, comentou Valdeci Ferreira em conversa com o DIÁRIO DO AÇO, após sua palestra para a comitiva do Vale do Aço.


Sem distinção

O fundador apontou que a Apac recebe condenados por toda espécie de crime, sem fazer distinção. “Sobretudo, não temos uma bola de cristal para saber qual tem recuperação e qual não tem. Todos poderão ter a oportunidade de passar pela Apac”, comentou Valdeci, acrescentando que menos de 5% não se adéquam as normas e vão para o regime prisional convencional.


Apesar de apontar que a Apac é algo bom, pelo menos com respeito ao ser humano, Valdeci explica por que alguns presos não ficam na entidade. “Temos algumas pessoas que preferem o sistema comum porque lá não tem hora pra se levantar, não há a obrigação de trabalhar, e até conseguem usar drogas. Lá, a corrupção é deslavada, e temos, aqui, a disciplina rígida para o trabalho, estudo e aula de valorização humana”, concluiu. (O repórter viajou a convite da comitiva).


 


 

Wellington Fred


comitiva apac


Vale do Aço luta para implementar Apac


 


 


ITAÚNA - O principal objetivo da comitiva do Vale do Aço na visita à Apac de Itaúna é criar um efeito multiplicador entre a população, sobre a possibilidade e necessidade de ser instalada uma unidade da Apac nos três principais municípios da Região Metropolitana do Vale do Aço.


Para isso, na comitiva, além de imprensa, estavam vereadores de Ipatinga e Coronel Fabriciano, profissionais da área da Saúde, da Assistência Social e representantes de entidades de classe, além da juíza da Vara de Execuções Criminais da Comarca de Ipatinga, Marli Maria Braga de Andrade.

 


Este efeito multiplicador é o que espera o presidente da Apac de Ipatinga, Luiz Fernando Costa. “Eu espero que, realmente, a gente volte e consiga implantar a Apac. A sociedade precisa desse suporte. Estamos convivendo com o Ceresp superlotado, e não dá para entender que uma Apac posse ser considerada perigosa. O que o Ceresp representa, então?”, deixa no ar.

 


Outro presidente da Apac, desta vez de Timóteo, José Carlos, é o que tem conhecimento in loco do sistema prisional comum. Ele é um ex-preso. “Se eu tivesse a oportunidade, se tivesse na minha vida uma alternativa, tinha dado mais alegria para minha família. Estive no sistema comum, este sistema falido. Hoje eu sou coordenador da Pastoral Carcerária. É chover no molhado, a reincidência é demais”, apontou.

 


O fotógrafo Carlos Roberto de Lima, que é o presidente da Apac de Fabriciano, está esperançoso que a entidade saia do papel no Vale do Aço e se torne uma realidade. “Temos a certeza que vamos conseguir a área que tanto necessitamos. E que Deus ilumine a mente que vai nos agraciar com a nossa área e vamos contar com a comunidade para nos ajudar”, acredita Carlos.


 


Wellington Fred


Diego Calíquio


“A Apac é um órgão que cobra e faz a justiça”


 


O recuperando Diego Calíquio, de 28 anos, tem o dom de se comunicar. Foi ele que apresentou boa parte da Apac de Itaúna para a comitiva do Vale do Aço, explicando em detalhes o funcionamento da entidade. Com boa oratória, o rapaz está há dois anos na unidade de Itaúna e não esconde que, ao chegar ao local, pensava em fugir. Diego apontou que nem tudo são flores, pois há muitos problemas, apesar do respeito mútuo entre os internos, porém todos buscam superar as divergências.


“O primeiro pensamento foi comportar direito, para depois fugir. Não tinha polícia, muros altos, cerca elétrica. Mas, a partir do momento que o voluntário enxergou em mim (o dom da palavra), isso fez que eu acreditasse em mim. Tenho uma oportunidade de mudança e eu vou fazer que meu sonho seja realizado”, comentou, informando um número da Apac: mais de 3 mil dias sem evasão (fuga com transposição de barreira ou rebelião no local). Confira abaixo a entrevista.


DIÁRIO DO AÇO - Como era o seu perfil ao chegar à Apac?

Diego Calíquio - Sou um recuperando da Apac há dois anos e quatro meses. Aqui se faz um trabalho pra a família, religião e ainda aulas de valorização humana, e resgate de sua autoestima. Cheguei desacreditando que poderia voltar para a sociedade. Vi que a Apac tem um suporte que me acolheu de forma simples e singela.


DA - E aqui, como é o trabalho?

Diego Calíquio - É amor ao próximo. O objetivo da Apac é, além de recuperar, promover a justiça, socorrer a vítima. Tem o objetivo de matar o criminoso e salvar o homem. No dia a dia, o criminoso tá sendo apagado em minha vida.


DA - Você nos recebeu. Não parecia que é um preso.

Diego Calíquio - A partir do momento que recepcionei, eu estou com a chave principal da portaria. E todas as pessoas foram entrevistadas, foram pessoas que cumpriram penas ou cumprem. A Apac é um órgão que cobra e faz a justiça, faz o recuperando sentir que está recebendo um tratamento melhor.


DA - O que mudou em você nestes dois anos na Apac?

Diego Calíquio - Eu me vejo com muitas coisas mudadas na minha vida. Eu ainda estou em processo de mudança e acredito que vou chegar ao meu objetivo, constituir minha família, sair e arrumar um emprego. Para me dar um suporte financeiro e tanto para mim e minha família. Nós temos que saber a hora pra tudo. Eu não vou tomar decisões precipitadas para minha vida, e muito menos dizer que serei aquela pessoa de agir pelo impulso.


DA - Como funciona o método?

Diego Calíquio - Os pilares são 12 elementos fundamentais e nenhum é melhor que o outro, trabalham como uma engrenagem. Se um falhar, vai complicar a aplicação do método. Nós, recuperandos, estamos nos policiando, porque no momento que um recuperando comete uma falta, ele vai comprometer a caminhada de todos.


  


Quem é fundador do método Apac? 


O advogado Mario Ottoboni é natural de Barra Bonita (SP), nascido em 11 de setembro de 1931 e residente em São José dos Campos desde outubro de 1943.


Autor de duas dezenas de livros, dedica-se, incansavelmente, desde 1972, ao trabalho de recuperação do ser humano que errou e cumpre pena privativa de liberdade.


Fundador da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) e inspirador de seu método, deixou de lado sua profissão, como fonte de renda, e passou a assistir juridicamente, sem honorários, os presos pobres. Mais informações sobre a Apac, neste link http://goo.gl/fXtS8, artigo bem aprofundado sobre o método.





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tabela Apac


 

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