05 de julho, de 2016 | 17:45
Nippon Steel quer Rômel Erwin de volta à Usiminas
O executivo da Nippon Steel ratificou que a companhia tem compromisso com o Brasil e com a Usiminas
SÃO PAULO - O presidente da Nippon Steel & Sumitomo Metal Corporation (NSSMC), Yoichi Furuta, afirmou na sede da empresa, em São Paulo, nessa terça-feira (5) que a decisão tomada pelos conselheiros de administração, no dia 25 de maio, de eleger Sérgio Leite como diretor-presidente do grupo foi um ato ilegal e, portanto, deve ser anulado. Assim, o presidente anterior, Rômel Erwin de Souza, deve voltar à Usiminas.
O executivo reforçou que o afastamento de Rômel foi totalmente diferente do que ocorreu em setembro de 2014, quando a Nippon capitaneou a destituição de três executivos argentinos, com base, segundo Furuta, em atos de ilegalidade praticada pelo trio, não podendo, portanto, misturar as duas situações.
Para o presidente da NSSMC, a afirmação dos dirigentes do grupo Techint/Ternium, segundo as quais Rômel Ervin apresentou resultados insatisfatórios em sua gestão, é inverídica. Rômel fez de tudo para liderar a reestruturação da empresa e, no meio do processo, a Ternium tomou a decisão de afastá-lo”, pontuou.
Por fim, afirmou que há 60 anos a Nippon Steel tem comprometimento com o Brasil e a Usiminas, e nunca mudou e nem pretende mudar esse pensamento. Os japoneses participam da Usiminas desde 1958, quando aderiram ao projeto binacional para a construção da siderúrgica em Ipatinga.
Sobre os principais entraves para o entendimento com os sócios argentinos, Furuta afirmou que há uma diferença básica com relação à Usiminas. Para os japoneses, a siderúrgica é uma empresa independente e de primeira linha, e vão fazer de tudo para que se desenvolva com essas características.
Na opinião do dirigente da Nippon, para a Ternium, a Usiminas é apenas mais um de seus negócios na América Latina. Desta forma, usam a empresa para aumentar a sinergia do próprio grupo deles.
Como há essa diferença na base do raciocínio entre os dois sócios majoritários, há diferenças também na administração, na governança, e com isso, surgem os vários problemas, admite o executivo.
Furuta pondera, entretanto, que o acordo de acionistas está em vigor até 2031 e assegura que a Nippon vai obedecê-lo. Em 2014, houve uma exceção, porque também houve um ato ilegal sob a gestão do ex-presidente Julián Eguren (retirada de bônus).
É quando o acordo fica abaixo da lei e uma exceção é permitida. Somente nessa situação extraordinária não cumprimos o acordo, que está em vigor antes mesmo da chegada da Ternium”, observou.
O presidente da NSSMC afirma que é um tempo prematuro para avaliar o comando de Sergio Leite na Usiminas, porque sua gestão tem pouco mais de 40 dias e a reestruturação da companhia e negociação da dívida com os bancos já estavam delineados por Rômel Erwin, afastado do cargo pelos conselheiros em 25 de maio.
A dívida da Usiminas é de R$ 7,5 bilhões. Como exigência dos bancos para refinanciar o débito, há um plano de capitalização em andamento para injetar R$ 1 bilhão na companhia, com recursos, principalmente, dos japoneses.
Questionado sobre a possibilidade de um acordo com a Ternium para o fim da disputa em torno da governança na empresa, Furuta disse que uma solução amigável é sempre muito melhor.
Mas sem entendimentos com a Ternium sobre o presidente da Usiminas, a NSSMC vai manter, na Justiça, o contencioso para a restituição do cargo a Rômel Erwin. Para o dia 11 de julho, está prevista uma reunião de conciliação no TJMG, acerca da ação que a Nippon move contra o conselho de administração.
A nota publicada segunda-feira na imprensa, os executivos da Nippon afirmamaram que: Fomos surpreendidos pelo presidente do conselho de administração, Elias Brito, conselheiro indicado por Techint/Ternium, que simplesmente ignorou a ausência de consenso entre NSSMC e T/T e aceitou os votos para eleição dos membros da diretoria, unilateralmente indicados por T/T, como se não houvesse um acordo de acionistas em vigor”, diz o comunicado.
A Nippon afirma ainda que espera decisões rápidas e adequadas” dos tribunais e das autoridades governamentais do Brasil sobre o caso e que vai continuar denunciando exaustivamente” a violação à Lei das SA e ao acordo de acionistas da siderúrgica mineira.
Certamente, a NSSMC continuará a apoiar a Usiminas como sempre tem feito, inclusive ao se comprometer desde o início a realizar por conta própria o aumento de capital de R$ 1 bilhão”, diz a Nippon.
Cisão dos ativos
Sobre a aventada possibilidade da separação dos ativos entre os sócios, em que a Nippon Steeel ficaria com a planta industrial de Ipatinga e a Ternium, com a de Cubatão, Furuta admitiu que essa é uma das possíveis saídas, mas ressaltou que não há qualquer negociação neste sentido.
Furuta deixou claro que, caso haja progressão na proposta para a divisão dos ativos, a Nippon mantém laços históricos com Ipatinga e uma sinergia positiva, o que levaria a NSSMC ao entendimento que é mais adequado ficar com a planta mineira da Usiminas. Mas que frisem, essa é uma negociação que não existe no momento”, destacou.
Superoferta
Sobre o mercado siderúrgico brasileiro, o executivo lembrou que é nítido o excesso de oferta na área primária, que exige uma otimização de todas as empresas siderúrgicas, sob risco de agravamento da situação.
Esse é um grande desafio, não somente para a Usiminas em Ipatinga e Cubatão, mas para todas as outras siderúrgicas brasileiras”, acrescentou.
Os dados do Instituto Aço Brasil (IABr) constatam o consumo atual de 9 milhões de toneladas/ano no país. Somente a Usiminas tem capacidade instalada para produzir 9,5 milhões de toneladas/ano, ou seja, atenderia toda a demanda brasileira e ainda teria ociosidade de 500 mil toneladas/ano.
Cortes
Sobre a possibilidade de adoção, na Usina de Ipatinga, das mesmas medidas aplicadas em Cubatão, com a desativação do setor primário (produção de gusa), Furuta afirmou que não há nenhuma análise neste momento. Esta semana, o atual presidente da Usiminas, Sérgio Leite, anunciou, em Belo Horizonte, que embora não haja previsão de corte de pessoal do chão de fábrica”, entre os gestores, existe previsão de corte entre 20% e 30%, que será concluído até 31 de julho.
As demissões vão abranger executivos e especialistas mas, conforme Leite, prioritariamente aposentados. A alegação é que a Usiminas tem executivos para produzir 9,5 milhões de toneladas/ano, mas produz, atualmente, 4 milhões.
Em São Paulo, Furuta evitou entrar no mérito da decisão operacional, mas observou que, nas gestões passadas, inclusive do ex-presidente Castello Branco, cortes não foram bem avaliados, impactando a produção da empresa e esse equívoco não deve ocorrer”.
Perguntado sobre o possível religamento do alto-forno 1 da Usiminas para permitir a produção de placas em Ipatinga, para a laminação em Cubatão, o que evitaria o corte de pessoal da gestão, Furuta afirmou que a decisão era de outra esfera na corporação. Entretanto, afirmou que uma medida dessa natureza precisaria avaliar questões como a lucratividade. Atualmente, a Usiminas compra as placas da CSA, no Rio de Janeiro.
Mas, se há um momento em que a divergência entre japoneses e ítalo-argentinos é deixada de lado, é quando se fala da CSN. Ambos os sócios tentam anular uma decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que permitiu a eleição de conselheiros indicados pela CSN. Trata-se da principal concorrente da Usiminas e sua presença no conselho só nos leva a crer que seja para impor dificuldades à Usiminas”, afirmou Yoichi Furuta.
Sobre outra possibilidade, a compra da parte da fatia da Ternium, pela Nippon, Furuta afirmou que nunca ouviu nenhuma proposta concreta neste sentido. Sobre outra possibilidade, de a Nippon vender sua parte para a Ternium, o executivo ratificou que não há nenhuma intenção da NSSMC em sair do Brasil. (* O jornalista foi a São Paulo a convite da NSSMC)
Posicionamento da Usiminas
A assessoria da Usiminas encaminhou, no fim da tarde dessa terça-feira, uma nota com o seguinte teor:
O diretor-presidente da Usiminas, engenheiro Sergio Leite de Andrade, trabalha há quase 40 anos na empresa, mantendo um relacionamento de mais de 35 anos com a Nippon Steel e de mais de 25 anos com o grupo Techint. No momento complexo por que passa o setor siderúrgico e a Usiminas, Sergio Leite reafirma o seu compromisso, como tem feito nos últimos 40 dias, de trabalhar de forma isenta e de buscar, no que couber à Diretoria Executiva, o consenso entre os sócios".
A empresa reitera ainda que o momento é de trabalhar com foco exclusivo na melhoria dos resultados e na conclusão do aporte de capital e da renegociação da dívida, fatores fundamentais para a sustentabilidade da Usiminas e para a recuperação de sua capacidade de gerar valor para os acionistas e para a sociedade em geral.”
Já publicado:
Presidente da Usiminas tem série de encontros em Ipatinga - 13/06/2016
Sérgio Leite é o novo presidente da Usiminas - 25/05/2016
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

















