Violência além da conta

Onda de crimes bárbaros assola região; comandante da PM propõe ação conjunta da sociedade para conter homicídios

Fotos: Roberto Bertozi


Comandante Siqueira: PM age, mas é difícil prever alguns casos

FABRICIANO – Já faz tempo que a violência bate à porta das famílias do Vale do Aço. E, como se não bastasse, em muitas vezes ela vem por encomenda, como demonstram dados levantados pelo DIÁRIO DO AÇO. Só nos últimos meses, foram registrados pelo menos dez crimes bárbaros e com toques de crueldade antes visto apenas em filmes de ficção.

Apenas como forma de esclarecimento e triste recordação, a reportagem enumerou alguns dos crimes cometidos na região: em Periquito, o ajudante Carlos Luiz do Rosário, o “Biriba”, 21, foi assassinado com cinco tiros; no dia 19 de abril, Carlos André Oliveira, o “Caquinho”, 30, foi cruelmente decapitado e a sua cabeça encontrada próximo a um meio-fio, no bairro Planalto; um dia antes, o estudante Filipe Martins da Silva, 17, foi morto a tiros na avenida Sanitária, em Fabriciano; no dia 17 de abril, uma discussão em um bar no bairro Esperança vitimou o ajudante Emerson Gomes de Faria, 30, com quatro tiros; na porta de um clube no bairro Bom Jardim, a comerciante Maria Cristina de Aguiar, 38, a “Maria Gogó”, foi morta a tiros; em Fabriciano, Denílson Rodrigues, o “Frajola”, levou três tiros quando estava em um bar; no bairro Bethânia, o ajudante Watame de Brito foi perseguido por dois homens e morto com dois tiros nas costas; em Timóteo, o braçal José Faria, 59, recebeu várias pauladas na cabeça antes de ser degolado.

Criança
No bairro Santa Cruz, em Coronel Fabriciano, um dos crimes que mais abalaram a região. Apesar de o foco da mídia nas últimas semanas ter ficado em São Paulo, especialmente no caso da menina Isabella Nardoni, jogada do sexto andar de um prédio de classe média-alta num bairro nobre da capital paulista, no Vale do Aço, Rafael Ricardo Lucindo, 22, matou o próprio filho, de apenas um ano e quatro meses, após uma discussão com a sua esposa.

Conforme a mulher, Rafael, que após ser preso foi encontrado morto dentro da cela do novo presídio de Coronel Fabriciano, havia ficado três meses sem aparecer em casa. Usuário de drogas e traficante, de uma hora para outra ele chegou completamente transtornado, querendo agredir a mulher de qualquer forma. O filho começou a chorar e, então, o pai pegou a criança e jogou-a contra a parede. A criança teve traumatismo crânio-encefálico.

Atualmente, a mãe da criança tem evitado sair de casa, com medo de represálias dos amigos de Rafael, que a acusaram de mentir para a PM. Na semana passada, a mulher seguiu para o Rio de Janeiro, onde pretende recomeçar a vida.

Ação
Na avaliação do tenente-coronel e comandante do 14º Batalhão de Polícia Militar, Sebastião Pereira de Siqueira, não há como prevenir esse tipo de violência que vem sendo praticada em todo o Vale do Aço. “Se alguém, de uma hora para outra, resolver matar o filho, o que a Polícia Militar pode fazer?”, questiona. Siqueira admite, no entanto, que é necessário a sociedade se unir “a fim de educar, de forma cívica, as pessoas de baixa renda, uma vez que a maioria dos crimes acontece em zonas carentes”.

“Essa violência não é exclusiva do Vale do Aço. Em outras regiões isso também acontece na mesma proporção, reflexo da própria fragmentação da sociedade”, critica. O comandante acrescenta que com a atuação do Grupo Integrado de Intervenção Estratégica (GIIE), composto por policiais militares e civis, muitos crimes têm sido evitados.


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Impunidade
Muitos crimes que acontecem no Vale do Aço não são elucidados. Em alguns casos, a demora e a falta de cobrança da própria população são responsáveis para que os delitos caiam no esquecimento.

“Investimentos são necessários. Em 2007, conseguimos bons resultados e, juntamente com o apoio da comunidade, muitos crimes foram evitados. Esses crimes bárbaros têm acontecidos devido à falta de estrutura e referência familiar”, salienta o tenente-coronel.

Mobilização de forças pode garantir novo CIA

Uma audiência que aconteceu no mês passado, na Câmara Municipal, e que contou com a presença do subsecretário de Administração Prisional, Genilson Ribeiro Zeferino, foi importante para discutir a falta de um Centro de Internação de Adolescentes (CIA). Segundo ele, já existe um terreno cedido pela Prefeitura de Ipatinga para a construção do Centro, mas a área é considerada imprópria.

Deputados federais e estaduais que representam a região, inclusive, já realizaram diversas audiências cobrando agilidade do Departamento de Obras Públicas (Deop), ligado à Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas. Em setembro de 2006, o Deop-MG assinou contrato com a empresa Aterpa, vencedora da licitação, mas até hoje, cerca de 18 meses depois, as obras ainda não foram autorizadas.

Existe até recursos da ordem de R$ 7 milhões para a construção do CIA, mas é preciso que o Vale do Aço se mobilize para viabilizar a instalação da unidade, a ser usada por adolescentes em conflito com a lei. O comandante do 14º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Sebastião Siqueira, lembra que no período de janeiro até a última semana de abril, jovens com menos de 18 anos foram apreendidos em 342 situações, a maioria deles reincidentes. “Sem a falta de um local apropriado, o menor acaba voltando para a rua e cometendo os delitos novamente”, lamenta.

Roberto Bertozi
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