05 de julho, de 2014 | 00:05
Crimes hediondos praticados por adolescentes
É revoltante viver em um país que fecha os olhos para a questão do adolescente infrator”
IPATINGA Apesar da definição do Tribunal de Justiça, que considera o estupro e o atentado violento ao pudor como crimes hediondos, ainda existem falhas na legislação para o julgamento desses delitos. É o que afirma a Delegada Regional de Polícia Civil em Ipatinga, Irene Angélica Franco. Para ela, a lei precisa ser mudada, principalmente quando esses crimes são praticados por menores de 18 anos.
Na quinta-feira (3), Erivaldo Almeida, de 21 anos, foi preso em Ipatinga. Ele foi apontado pela polícia como o autor de uma série de roubos seguidos de estupros das vítimas na região.
Em março de 2011, quando menor de idade, Erivaldo foi apreendido após assaltar e abusar de uma médica. A delegada Irene Franco, que na época estava à frente da Delegacia de Mulheres cuidou do caso. Ela informou que a polícia conseguiu reunir uma série de provas da culpabilidade do rapaz. Foi um inquérito muito bem feito. A Perícia da Polícia Civil concluiu o inquérito e comprovou a autoria de Erivaldo. Principalmente porque encontramos resquícios do DNA do autor dentro do veículo da vítima”, relembrou.
Após a conclusão do inquérito, Erivaldo foi julgado pelo juiz da Vara da Infância e da Juventude, que decidiu pela internação do adolescente. A condenação na Vara da Infância e da Juventude, explica a delegada, não estipula o tempo que o adolescente deve permanecer apreendido. O menor, ao ser condenado, dentro do que é previsto na lei, permanece apreendido de acordo com uma determinação por parte do juiz. Ele é condenado, encaminhado ao Centro de Internação e, dentro de um ano passa por uma avaliação, para que seja verificado se ele pode ou não retornar para a sociedade. E foi o que ocorreu com o Erivaldo”, explicou.
Irene Franco acrescentou que, apesar da gravidade do crime praticado por Erivaldo, ele permaneceu internado por um curto período. Condenações de menores podem ser de até três anos, porém o Erivaldo ficou apenas dois. Após passar por uma avaliação, o juiz da época concluiu que o rapaz estava apto para voltar a viver em sociedade e o liberou. Eu acredito que houve um erro nessa avaliação que levou a soltura do Erivaldo”, afirmou.
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Não se pode soltar um indivíduo desses de qualquer maneira"
A delegada acredita que em casos como o de Erivaldo Almeida, em que há uma evidência de transtorno do acusado, ele deve ser encaminhado a algum manicômio judicial, por ser um caso específico. Não se pode soltar um indivíduo desses de qualquer maneira. É evidente que esse rapaz não vai deixar de cometer esse tipo de crime. Ele tem uma perversão sexual, em que ele precisa que a mulher seja submissa, e mesmo que ele fique preso, essa perversão não vai acabar. Ele pode ser preso e condenado, mas não vai deixar de desejar esse tipo de coisa”, afirmou.
Irene Franco acrescentou que a forma com que Erivaldo praticava os crimes evidencia o transtorno sofrido por ele. O rapaz tentava conversar com a vítima antes de atacá-la, queria saber onde a moça morava, do que ela gostava, como se fosse um encontro mesmo. Pra ele, o estupro seguido de grande violência, era algo normal. É um rapaz que não tem consciência da gravidade de suas atitudes. Um cara que rouba, ao ser preso algumas vezes, pode deixar de roubar porque não quer voltar para a cadeia. Mas um pervertido dificilmente se livra desse transtorno”, afirmou.
A delegada informou que novas vítimas compareceram na delegacia após a prisão de Erivaldo. Ela acrescentou que as investigações estão em andamento, e quanto mais vítimas comparecerem a delegacia, mais facilitado se torna o trabalho da polícia, no que diz respeito ao recolhimento de provas para a condenação de Erivaldo.
O exemplo do Caso Champinha
Na entrevista ao DIÁRIO DO AÇO nesta sexta-feira, um dia após vir à tona a nova prisão de Erivaldo Almeida, a delegada Irene Angélica Franco relembrou o caso de Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, atualmente com 26 anos. Aos 15 anos ele foi apreendido e internado em 2003, após abusar e assassinar Liana Friedenbach, de 16 anos, em Embu-Guaçu, São Paulo. Além da jovem, Champinha também participou da execução de Felipe Silva Caffé, de 19 anos, o namorado de Liana.
Mesmo após completar 18 anos, Champinha continuou internado na Fundação Casa, em São Paulo. Psiquiatras forenses que acompanham o rapaz desde a sua chegada à internação, em novembro de 2003, entendem que seu quadro é irrecuperável e há grande probabilidade de Champinha reincidir no crime. Foi um caso que chocou todo o país pela forma violenta como foi praticado. Mesmo apreendido, o Champinha falou que iria matar outras pessoas e abusar de outras garotas, prova que pessoas com esse tipo de transtorno não deixam de tê-lo”, afirmou Irene Franco.
A delegada informou que após o assassinato do casal de São Paulo, a legislação passou por mudanças e casos como esse passaram a ter uma atenção maior.
Os julgadores passaram a entender que, mesmo após um adolescente infrator atingir o limite de sua pena, que é de três anos, há a possibilidade dele permanecer acautelado. Isso ocorre em função da periculosidade do infrator. Ele permanece internado não em função do crime, mas devido ao seu distúrbio mental, que mostra que o indivíduo continuará praticando o crime. E é o que deveria ter ocorrido com o Erivaldo Almeida, em Ipatinga, mas a lei não é precisa quando há um menor de 18 anos envolvido”, explicou.
Para a delegada, além do questionamento da redução da maioridade penal, é necessário que também sejam analisados, de forma especial, os crimes hediondos praticados por menores de 18 anos. A Delegacia de Mulheres de Ipatinga é referência nacional e nós vamos usar disso para fazer um documento que relate esse caso e mostre os efeitos negativos da volta desse rapaz para a sociedade. Vamos mostrar que ele continuou a cometer os mesmos crimes de três anos atrás e de forma ainda mais violenta. Vamos fazer com que esse documento contribua para que a questão do adolescente seja revista pelo Congresso Nacional. Ou que a maioridade seja reduzida ou que o menor infrator que comete crimes hediondos tenha um tratamento diferente”, afirmou.
A delegada concluiu afirmando que apesar do esforço das polícias e do judiciário, muitos crimes envolvendo menores não recebem a penalidade que merecem, em função das falhas na lei. Como delegada de polícia, eu acho revoltante concluir um inquérito de forma tão bem feita, e pouco tempo depois o autor estar liberado e cometendo o mesmo crime. A sociedade fica refém desse tipo de infrator, e as mulheres mais ainda. A dignidade sexual da mulher é o que ela tem de mais importante. E ela fica à mercê de bandidos que praticam crimes sexuais porque a legislação dá brechas a esse tipo de infrator. É revoltante viver em um país que fecha os olhos para a questão do adolescente. Hoje foi uma mãe de família de um bairro qualquer, amanhã pode ser minha irmã, minha filha. A sociedade precisa se sentir ofendida com essa situação para que a lei mude e os autores paguem pelos seus crimes”, concluiu.
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