Cadeia explode com homicídio e motim

Eterno problema sem solução?

Fotos: Wellington Fred


Dezoito presos foram transferidos para o Ceresp, em Ipatinga, e Timóteo

FABRICIANO - Outro fim de semana de mais problemas na precária cadeia de Coronel Fabriciano, com rebelião e até assassinato. No sábado à noite, o ajudante Moisés Soares Magalhães, de 22 anos, morreu com vários golpes de barra de ferro na cabeça. O crime ocorreu na cela 4, onde estava o vendedor Welton Ramos, de 22 anos, que confessou a autoria do crime. Cerca de 24 horas depois, os presos tentaram matar os detentos que estavam na cela onde ocorreu o assassinato, sendo necessária a intervenção de força policial com bombas e balas de borracha.

A morte de Moisés ocorreu por volta das 20h de sábado, segundo informações dos policiais militares. A vítima estaria com uma faca e ao tentar atacar o vendedor recebeu vários golpes de barra de ferro, chamada pelos presos de ‘pirulito’. O motivo da confusão: Moisés desceu da cama e esbarrou o pé na cabeça do acusado. O rapaz reclamou do encosto, o que provocou a ira de Moisés.

Os outros internos tentaram intervir; porém, no segundo ataque de Moisés, ele acabou agredido com a barra de ferro serrada da grade. Todos os presos foram retirados do local e colocados no pátio da cadeia. Após os trabalhos do perito Roberto, o corpo do ajudante foi encaminhado ao Instituto Médico Legal e liberado na manhã de domingo para a família.

Em conversa com o DIÁRIO DO AÇO, Welton confessou o crime e disse que “perdeu a cabeça” após ser perseguido pela vítima nos últimos dias. “Ele estava ‘covardeando-me’ na cadeia e ao tentar me atacar com uma faca acabei agredindo-o com a barra de ferro”, alegou o rapaz, que disse ter agido em legítima defesa. Ele está recolhido há sete meses, acusado de receptação.

Flagrante
Welton foi autuado em flagrante por homicídio pelo delegado Astrogildo Valério, de plantão na 19ª Delegacia Seccional de Coronel Fabriciano. A faca que seria usada pela vítima foi apreendida e a barra de ferro usada no crime foi novamente soldada à grade. O delegado investiga a participação de outros presos no crime. “Acredito que não foi apenas este rapaz que matou na cela. Vamos investigar para chegar aos outros envolvidos no caso”, disse Astrogildo, logo após ouvir o preso em cartório.

Para o delegado, a ação ocorrida no último sábado já estava prevista diante dos problemas intermináveis que ocorrem no presídio precário situado na rua Boa Vista, no Centro. “Já fizemos várias comunicações aos nossos superiores. Isso pode começar um efeito dominó e iniciar uma ‘ciranda da morte’ na cadeia”, comentou o policial, como se tivesse profetizando o que viria no domingo.


A morte de Moisés ocorreu por volta das 20h de sábado
A vítima
Moisés morava na rua Democrata, no bairro Mangueiras, filho de Oderça Leone Soares, a “Mãe de 12”, como é conhecida a mulher que já cumpriu pena por tráfico de drogas. Ele estava preso desde o dia 4 de setembro por meio de um mandado de prisão expedido pela Justiça. Ele era suspeito de se envolver na morte do ajudante André Nunes Pereira, de 26 anos, em 28 de setembro do ano passado. A vítima deu a própria vida para livrar o pai de ser morto, Pedro Ferreira, de 81 anos, que foi ferido com um tiro na mão direita.

Ele foi morto com um tiro no peito por um homem desconhecido que invadiu a casa dele, na rua Atlético, no bairro Mangueiras. O alvo do assassino seria o pai de André, numa possível retaliação de traficantes, porque a vítima teria chamado a polícia para um deles. Na época, em conversa com o DIÁRIO DO AÇO, Moisés negou a autoria do crime e até que tenha mandado matar a vítima. O caso está transitando na Justiça.

Por pouco tragédia de Ponte Nova não se repete

A fala do delegado Astrogildo Valério ao DIÁRIO DO AÇO, logo após o homicídio ocorrido no sábado à noite, já predizia algo maior. Em menos de 24 horas depois do primeiro problema, os outros presos da cadeia tentaram matar os detentos da cela 4, mesmo local do assassinato. A chacina não ocorreu devido a uma intervenção de policiais civis e militares que estavam no presídio no momento do motim. Uma tragédia semelhante à ocorrida na cadeia de Ponte Nova por pouco não ocorreu em Coronel Fabriciano.


O delegado Astrogildo investiga a participação de outros presos no crime
O domingo foi dia de visita na cadeia e surgiram rumores de que os presos iriam vingar a morte de Moisés. A informação foi passada aos policiais que, por volta das 18h, realizaram uma vistoria superficial na cadeia, porém nada de anormal foi detectado. Cerca de duas horas depois os detentos estouraram cadeados e grades das demais celas, indo na direção da cela de número 4.

No momento do motim, estava na cadeia a equipe do sargento Paulo Brandião redigindo uma ocorrência. Os policiais militares, com ajuda da guarda da cadeia e o agente Camilo iniciaram o primeiro combate aos presos, com tiros de bala de borracha, bombas de efeito moral e até tiros para o alto, com revólveres. Com a chegada de reforços, os policiais conseguiram retirar um colchão em chamas colocado junto à cela 4.

Reforço
Pelo menos 30 policiais militares sob o comando da tenente Carla se deslocaram em várias viaturas de Ipatinga, Fabriciano e Timóteo para sufocar o motim. Em menos de uma hora, a situação na cadeia já estava controlada. “Para amenizar o problema, conseguimos a transferência dos 18 presos da cela 4, sendo dez para o Ceresp de Ipatinga e oito para a cadeia de Timóteo. Se não fosse a ação rápida da equipe de Brandião e do agente Camilo, poderíamos ter uma tragédia aqui”, comparou Astrogildo.

A comparação do problema de Fabriciano com a cadeia de Ponte Nova se deve à chacina de 25 presos, mortos carbonizados na madrugada de 23 de agosto. Os detentos foram encurralados na cela 8 por rivais. Eles atearam fogo em um colchão encharcado com um líquido inflamável, provocando um incêndio. As chamas só foram controladas cerca de uma hora depois. Como a cidade não possui Corpo de Bombeiros, um caminhão-pipa foi utilizado para debelar o fogo, que já havia tomado conta de boa parte do segundo andar do prédio.
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