Show de Calouros na penitenciária

Etapa do Festival de Música é realizada com sucesso em Ipaba

Wellington Fred


Os três eleitos na seletiva vão concorrer com outros representantes de oito presídios para gravação de um CD

IPABA - A possibilidade de gravar um CD, chegando ao estrelato, brilhou aos olhos dos internos da Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho. Três deles conseguiram passar na seletiva do 2º Festival de Música de Penitenciária (Festipen) realizada na unidade sediada em Ipaba. Ao melhor estilo Amado Batista, Edvaldo da Silva ficou em primeiro lugar na votação dos jurados com a música “Não Vou Chorar”. Os três eleitos na seletiva vão concorrer com outros representantes de oito presídios para gravação de um CD.

O projeto surgiu com a idéia do delegado aposentado, José Estadeu Costa. “Quando era da ativa, recebia algumas letras e músicas compostas por presos perguntando se eram boas. Na época não pensava nesta possibilidade; porém, ao me aposentar, e como sou músico e gosto de compor, surgiu a idéia de promover estes talentos nas penitenciárias”, informa Estadeu.
O delegado disse que o projeto foi considerado um dos destaques no Ministério da Cultura.

“A Secretaria de Defesa Social abraçou e a Secretaria Nacional de Cultura também esteve conosco, com o apoio fundamental da Cemig. Estamos apenas dando um apoio a estes presos. Temos mais de 100 canções compostas”, antecipa o produtor do Festipen.
Segundo ele, os três melhores colocados de cada uma das oito penitenciárias participantes - entre elas uma de mulheres - vão disputar da etapa final. Serão escolhidos dois músicos/intérpretes que vão gravar 16 músicas. “O lançamento vai ocorrer em Belo Horizonte. A próxima etapa acontecerá na Penitenciária Francisco Floriano de Paula, em Pacas, em Governador Valadares”.

Envolvimento
Empolgado com todo o envolvimento dos funcionários com a etapa do Festipen na PDMC, o diretor-geral Adão dos Anjos aproveitou para reforçar o trabalho desenvolvido na sua unidade. “É uma emoção muito grande. É a constatação do projeto que dá certo, acreditar no homem, um verdadeiro prêmio dado por Deus a nós e a toda equipe”, agradeceu o diretor.

Adão fez uma revelação em meio a tanta alegria. Pelo menos 10% dos funcionários da PDMC ainda não acreditam no projeto. “Até autoridades não concordam com o que estamos fazendo aqui. Estamos apenas colocando em prática a aplicação da lei, apenas isso, fazendo a ressocialização dos presos”, desabafa o diretor, que é tenente da PM reformado e advogado.
Ele fez um pedido aos empresários e autoridades do Vale do Aço:

“Todos os oito participantes foram muito bem. Para nós é o sinônimo de êxito o compromisso de uma turma que gosta do que faz. Gostaria de premiá-los com a gravação de um CD independente, com todos estes oito artistas e, para isso, espero ajuda para realizar este sonho”, pediu Adão dos Anjos, encerrando com uma reflexão da escritora Cora Coralina: “É o resultado em que acreditar no ser humano tem jeito sim”.

Pernambucano vence a etapa com música brega

“Caia na vida pra vê se encontra outro alguém como eu”. Este refrão levantou o seleto público que acompanhou a apresentação dos oito artistas escolhidos na Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho, em Ipaba. É o refrão da música “Não vou chorar”, composta e interpretada pelo pernambucano Edvaldo da Silva, ganhadora da etapa em Ipaba. Além da seleção, o músico ganhou um violão.

Em conversa com o DIÁRIO DO AÇO, ele disse que foi um prazer participar do festival de música. “Resolvi tentar a vida fora de Pernambuco. Foi aqui em Minas Gerais que começou minha história, conheci minha esposa. Nunca tinha ganhado nem jogo de birosca; é o primeiro prêmio de minha vida”, entusiasmou o músico.

A música de desabafo, no estilo de Amado Batista, tem um motivo, como revelou Edvaldo: “Esta música compus após a separação da minha primeira mulher, ela não me deu valor. Após separar dela, fui preso em 1999”, revela, acrescentando que tem várias músicas compostas e algumas já enviadas para a apreciação de Amado Batista. “Não imaginava que dentro de penitenciária iria ter uma oportunidade. Vou tentar gravar um CD quando sair daqui”, antecipa.

Em segundo lugar, com a música Canta Passarinho, o interno Geazi Silva também levou um violão. Animado, ele agradeceu a todos pelo sucesso alcançado: “Para mim foi uma conquista grande e para a honra e glória de Deus agradeço a todas as autoridades e a direção da PDMC. É a realização de um sonho”, comemora.

O raper Moisés Araújo conseguiu ficar em terceiro lugar na votação dos jurados, compostos por convidados da PDMC, entre eles o DIÁRIO DO AÇO, único jornal a participar. O jovem morador de Coronel Fabriciano ganhou um pandeiro e a classificação com a música rap “Mestre Cerimônia”. “É mostrar as coisas ruins que a gente passa e agora colocar as coisas boas que estamos tendo com o apoio de todos aqui”, disse o rapaz, fã dos Racionais MCs, MV Bill, Marcelo D2 e outros.

Recado
Participaram ainda da etapa realizada em Ipaba, Geraldo Lopes, com a música “Venha Jesus, ó Perdido”; João Pereira, com as canções “Olha meu querido, meu irmão” e “Um dia Resolvi”; e o músico Elizeu Vieira da Silva participou com duas narrações de rodeio, “Cowboy Prisoneiro” e “Fatalidade da Vida”.

Elizeu, um dos participantes mais alegres, contrastou com a pessoa que chegou à penitenciária: ele era um dos líderes de rebeliões graves que aconteceram no Estado, entre elas a Penitenciária Nélson Hungria, mas hoje está completamente mudado. Em uma das suas narrações, ele conta um homicídio praticado por ele e todo o problema gerado depois. E dá um recado aos outros presos: “Pensem em sair daí e ter uma boa profissão, acreditem em Jesus Cristo, pois só ele é a salvação”.

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