CPI constata omissão em depoimentos de policiais

Wôlmer Ezequiel


Deputados federais ouvem presos sobreviventes do massacre da cadeia de Ponte Nova. Vinte deles estão na PDMC, em Ipaba

IPABA - Ficou claro, ontem, o longo trabalho que os deputados federais da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Sistema Carcerário no país vão ter pela frente. Eles estiveram recolhendo depoimentos dos presos transferidos da cadeia de Ponte Nova, na Zona da Mata Mineira, para a Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho (PDMC), em Ipaba. Eles vieram para o Vale do Aço após o massacre ocorrido na madrugada de 23 deste mês, quando morreram 25 presos.

Pela manhã, chegaram ao aeroporto da Usiminas, em um vôo fretado, três deputados da CPI: o presidente Neucimar Fraga (PR-ES), Domingos Dutra (PT-MA) e Alexandre Silveira (PPS-MG). Com eles, várias indagações diante de dúvidas levantadas em Ponte Nova. “Vamos continuar o trabalho que iniciamos lá e esperamos fazer uma avaliação melhor”, disse Neucimar.

Segundo levantamentos dos deputados, houve omissão de informações dos policiais civis ouvidos. Por isso, prestaram novas oitivas ontem para os deputados o delegado e diretor da cadeia, Wanderley José Miranda de Araújo, os agentes Marco Aurélio, Maurício Campos e Antero Marcos. “Entendemos que são informações importantes que sinalizam o não-desejo de colaborar com as investigações”, completa o presidente da CPI.

Os policiais ouvidos pela Comissão Parlamentar foram os primeiros a chegar ao Vale do Aço em um avião da Polícia Civil. Acompanhando os trabalhos na região, o secretário de Estado de Defesa Social, Maurício de Oliveira Campos Júnior, o subsecretário para Assuntos Prisionais Genézio Zeferino e delegados da Corregedoria-Geral da PC. Eles evitaram conceder entrevistas aos profissionais de imprensa que os aguardavam no aeroporto.

Dúvidas
Entre as informações apurados pelos deputados, que não foram sanadas pelos policiais civis, estão a que dois presos foram vistos amarrados e acorrentados na divisa dos corredores na cela 8 (onde ocorreu o massacre) e da cela 9. Estes detentos foram todos autuados pelo crime. “Estes presos amarrados poderiam ser ouvidos, mas não sabíamos. Tinha uma revista que ocorreu na cadeia, na semana do fato, mas também não sabíamos”, conta Neucimar.
Outro dado que os deputados apontaram é que uma grade da cela 11 foi serrada.

Possivelmente esta barra foi usada para quebrar os cadeados da cela 9  para os presos saírem e atacarem os rivais na cela 8. “Tivemos o depoimento de um PM que alega ter ouvido mais de 20 tiros, mas as cápsulas têm que aparecer no corpo de algum preso, na parede ou no chão. Por enquanto, nada”, disse.

O relator Domingos Dutra apontou um detalhe importante: “Temos que esclarecer que material inflamável foi jogado na cela 8, pois apenas colchão e roupas seriam insuficientes para provocar um incêndio como aquele. Nós queremos também identificar, individualizar a facilitação de armas, serras ou munição”, completou o deputado.

Esclarecimentos
O deputado Alexandre Silveira ressaltou que a CPI foi criada não só com o objetivo de esclarecer o fato ocorrido em Ponte Nova, mas diagnosticar todo o sistema prisional brasileiro. “Infelizmente aconteceu essa tragédia em Minas Gerais e estamos para apurar. O objetivo nosso é que no final dos trabalhos parlamentares possamos oferecer propostas para mudar a situação; o Estado dar instrumentos para ressocializarmos o cidadão e devolvê-lo à sociedade”.

Diretor da cadeia se contradiz

Entre as 13 pessoas previstas para prestar depoimento, estava o delegado e diretor da cadeia de Ponte Nova Wanderley José Miranda. Ele teria entrado em contradição durante a nova oitiva na Penitenciária Dênio Moreira de Carvalho, em Ipaba. Ele errou, como apontaram os deputados aos jornalistas - que não puderam acompanhar os trabalhos da CPI, sob alegação de medidas de segurança.

O policial disse num primeiro momento que havia acompanhado a revista realizada na cadeia de Ponte Nova, na semana do massacre. Ontem ele negou, dizendo que um dos policiais civis é que esteve no presídio. O presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga, apontou, na noite de ontem, em um dos intervalos para falar com a imprensa, que os depoimentos estão bastante conflitantes e iriam demorar por várias horas ainda.

Ouvidos
Os presos da cadeia de Ponte Nova ouvidos pelos deputados, até o fechamento desta edição, foram Geraldo Brito e José Santana, que estavam recolhidos na cela 12; Wallison Macedo Pinto, o Ratão, na cela 10; Washington Luiz Araújo, da 11. Outro depoimento importante é de Wanderson Luiz Januário, o ‘Biju’, que seria rival do Cleverson Alexandre da Cruz, o ‘Clevinho’, morto no motim. Wallison teria influenciado os presos a participarem do ataque, pois Giovani e Gleisinho, que morreram na cela 8, o ameaçavam. Ele teria matado um parente de Giovani.

Foi apurado pela CPI um envolvimento na confusão de uma briga por tráfico de drogas da quadrilha dos irmãos Adair e Sinésio Ferreira, que estariam à frente da distribuição de drogas em Ponte Nova. Adair está preso em Foz do Iguaçu, no Paraná, de onde ia buscar droga no Paraguai. Sinésio está recolhido em Curitiba, pela Polícia Federal.

Fita
Os deputados requisitaram da jornalista Mônica Miranda, da Rádio Itatiaia, a fita da entrevista que ela fez com o preso albergado Francisco Feliciano. Ele esteve momentos antes na cela 8 e acompanhou toda a movimentação que deu origem à tragédia. O combustível para o incêndio seria um coquetel molotov usado pelos presos da 8 para chamar a atenção dos policiais diante da ação do grupo rival de Wallison.

O coquetel seria composto de zica (álcool e iodo), preparo para os presos usarem em ferimentos, mas armazenado por eles para a eventualidade de uma rebelião. O medicamento é fornecido como tratamento de micoses. Os presos da cela 9, ainda segundo o preso Francisco, teriam atirado várias vezes contra os inimigos da 8 com um revólver. O preso, que estava em Ponte Nova, foi chamado para prestar esclarecimentos aos deputados. Os trabalhos da CPI estariam previstos para serem encerrados durante a madrugada de hoje.
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