22 de dezembro, de 2016 | 17:41

Salvos pela baixa renda

João Senna



Andar pelas ruas centrais de Ipatinga na véspera do Natal era impensável à época das vacas gordas. Já no início de dezembro, o jeito era alterar o trajeto para fugir à agitação natalina. A imprensa nacional rotulava a região como o Ruhr Brasileiro, atraindo para o suposto novo Eldorado sonhadores de todos os quadrantes do Brasil e do mundo.

A Usiminas despontava como a joia da coroa do chamado Milagre Brasileiro. Ostentar um uniforme da siderúrgica assegurava atendimento vip nas lojas. Aos meros pagadores de impostos que custeavam a gastança na esfera estatal, restava esperar, sentadinhos!

Engodos têm vida curta. Recentemente, muitos acreditaram que, finalmente, o Brasil encontrara o caminho do desenvolvimento sustentável. Estamos quebradinhos da silva.

Da mesma forma como proliferam embusteiros, arautos do bom senso apontam a ameaça de o navio afundar à menor procela. E quando a marolinha vira tsunami, os comandantes são os primeiros a buscar a salvação, refugiando-se em tríplex e sítios paradisíacos “sem donos”.

Muito provavelmente por temerem o castigo divino, não invocam o eufemismo “Propriedade do Senhor”, exceto Eduardo Cunha, que possui muitos bens em nome de Jesus.com.

São Delfim era de barro, e o milagre desandou. Enquanto isso, os metalúrgicos, além do salário robusto, contavam com facilidades para levar um invejado padrão de vida. Todo fim de ano, o “Girafão” fazia a alegria dos lojistas. O referido abono representava de dois a três salários no contracheque. A essa altura, o problema dos comerciantes era arranjar mercadoria para atender à avassaladora demanda.

A festa acabou. Em meio às incertezas que rondam a Usiminas, os metalúrgicos reivindicam mínimas correções salariais. Já a empresa deixa claro que resta à categoria pegar ou largar a sua contraproposta.

Nos anos de fartura, reportagens relatavam o drama de mulheres às voltas com listas de guloseimas importadas e presentes inéditos. Com as vacas magras, não sabem como contemplar tudo isso no salário raquítico.

A salvação da lavoura, quem diria, virá dos consumidores da classe de renda mais baixa. Conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, grupos com renda familiar de até R$ 2,1 mil pretendem gastar mais neste Natal, em comparação aos demais estratos sociais.

O brasileiro, a despeito das dificuldades, vai festejar o Natal conforme o figurino reinante, associando-se às celebrações que ocorrem até mesmo em países que não professam a doutrina cristã. Cuba é uma exceção nesse congraçamento. O “Comandante” declarou o Estado ateu e, de quebra, aboliu o Natal como dia santificado.

Com a falência dos financiadores das suas fanfarronices, pediu penico a João Paulo II e seus sucessores para a reinserção da ilha caribenha no contexto mundial. Emérito cara de pau, o barbudo certamente se fartará do panetone, opa, do pão que o diabo amassou, sentindo post-mortem um pouco das agruras a que submeteu os cubanos, intimidados pelo paredón e outras “reprimendas”.

A marcha da História corrigirá essa e outras atrocidades do clã Castro.
De volta ao nosso quintal, palmas para a esmagadora maioria da massa sempre presente nos projetos do futuro de todos os partidos e de todos os farsantes, e que vai segurar o rojão, como sempre. E assim muitas crianças, e adultos também, vão sentir e renovar a magia do Natal.

*É jornalista
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