22 de setembro, de 2016 | 14:36
O Suicídio e a Palavra: quais os nutrientes e as armas para nosso mar de angústia?
Beto Oliveira
Desde 2014 o mês de setembro tem sido uma época de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Eventos, palestras e textos são divulgados em variadas plataformas por todo o mês, principalmente no dia 10, dia mundial de prevenção do suicídio.Quem acompanha esses debates já deve ter percebido a ênfase que psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e outros atores da saúde e da sociologia vêm dando à importância de se falar sobre o tema. Ênfase que é presentificada na própria página da campanha Setembro Amarelo” através do slogan Falar é a melhor solução”. Esse slogan pode ser lido não apenas como uma recomendação aos que são perpassados pelo desejo de se matar, mas também como uma forma de destacar a relação entre a vida e a palavra.
Essa relação é tema recorrente na psicanálise e se realça na reflexão freudiana sobre o suicídio. Freud aposta, basicamente, em duas teorias que explicam o desejo de se matar. Teorias que se complementam mais do que se excluem.
Inicialmente, Freud destaca o impulso de autoconservação do ser humano. Superestimando o valor de tal impulso, o pai da psicanálise considera praticamente impossível que uma mente possa carregar em sua origem um desejo de se extinguir. No entanto, Freud não se iludia com uma espécie de instinto de sobrevivência que buscaria de forma automática fazer o homem sempre se esquivar da morte.
Freud sabia que o suicídio era uma escolha possível para o ser humano, ainda que houvesse ali um impulso de autopreservação. Como dissolver tal paradoxo? A explicação inicial de Freud é interessantíssima. Para o jovem psicanalista, se não havia um impulso autodestrutivo original, o desejo de se matar era sempre um retorno de um impulso agressivo dirigido antes para o mundo externo.
Na impossibilidade de matar ou ferir o mundo que o fere, o sujeito voltaria seu ódio a si mesmo. Algo dessa ordem podemos encontrar no dilema melancólico de Hamlet, que ao se indagar sobre sua existência (ser ou não ser), questiona se é mais nobre sofrer na alma pedradas e flechadas do destino feroz ou pegar em armas contra o mar de angústias, e, combatendo-o, dar-lhe fim”. O ódio ao destino feroz que nos lança pedradas e flechadas vira motivação para pegar em armas contra si mesmo dando fim ao nosso mar de angústias.
Todavia, após presenciar a primeira Guerra Mundial, Freud passa, a partir de 1920, a considerar a possibilidade de um impulso autodestrutivo no ser humano. Estendendo nosso destino biológico às forças mentais, Freud fala, pela primeira vez em Pulsão de Morte.
Assim como todo corpo orgânico é fisgado desde cedo pela força da morte (começamos a morrer logo ao nascer), nossa mente também teria uma força que busca aniquilar qualquer sinal de vida, de tensão, de energia. Desta forma, assim como o corpo precisa se ligar a nutrientes para adiar a morte, a mente também precisaria se ligar a algo para não ser tomada pelo impulso de acelerar a extinção do ser. Daí Freud ter chamado esse impulso de ligação” de Pulsão de Vida, e ter eleito o deus Eros, deus da união, como representante desse impulso. O suicídio seria, assim, muitas vezes, resultado da falta de ligação do sujeito a um sentido, a um amor, a um trabalho, a uma arte, a uma missão.
Ambas as teorias se misturam como explicações possíveis para o suicídio. E aqui estamos novamente diante da palavra. Sendo o homem um ser de linguagem, é através das representações que ele se liga ao mundo. E é também através de representações que ele encontra outros meios de enfrentar o destino feroz hamletiano. A palavra é, assim, tanto um nutriente que nos liga à vida quanto uma arma para combater o mar de angústia. Portanto, falemos.
Beto Oliveira é Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral A família de Arthur”.
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Jaeder Teixeira Gomes
23 de setembro, 2016 | 12:17-"Ninguém tem o direito de me julgar; bati em todas as portas à procura de trabalho".
Estas palavras foram proferidas pela atriz Leila Lopes para justificar sua decisão de protagonizar filme erótico. O que não sabíamos é que elas se aplicariam dias depois a outra decisão sua, muito mais definitiva. cansada de bater em portas fechadas, resolveu fechar sua própria porta, a porta da sua vida.
O autoextermínio é uma decisão que não é propriamente "tomada" pelo indivíduo. Ela "toma" o indivíduo. Uma vez acometido por essa síndrome o indivíduo se encontra em uma esparrela, de onde não poderá sair por iniciativa própria. Somente forças externas poderiam resgata-lo.
-É falta de fé, diriam.
Pode ser, pois desconheço os tentáculos da fé, mas certamente é a primeira que sucumbe ao se perder o prumo da vida. E com ela, todo o resto de autoestima e dignidade se derramam no abismo.”