13/09/2018 15:05:00

Ciro, Keynes e o SPC

Felipe Chaves Inácio*



“Daz todo sentido elaborar um plano para que as pessoas possam negociar suas dívidas e retornar ao mercado consumidor”

Recentemente, nessa campanha eleitoral, e especialmente após a primeira “sabatina” dos candidatos na TV, vimos certo frenesi acerca de uma das propostas do candidato Ciro Gomes: aquela que se refere à retirada do nome de devedores do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Não quero fazer aqui nenhuma apologia nem, muito menos, campanha para candidato algum. Entretanto, gostaria de tecer alguns comentários acerca desta proposta à luz da teoria econômica.

Em 1936, o economista John Maynard Keynes publica a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (mais conhecida simplesmente por Teoria Geral), uma obra que se tornaria clássica na literatura econômica. Com ela, Keynes inaugurou uma nova área da economia e influenciou a formulação de políticas econômicas por décadas. E ainda influencia. Dentre os muitos conceitos desenvolvidos por ele, destaca-se o conceito de “demanda efetiva” que poderia ser entendida, grosso modo, como a parte da demanda agregada (a demanda total) que realmente se efetiva, ou seja, onde de fato “há um gasto” e não somente a intensão de gastar.

Este é um conceito central na teoria keynesiana, pois estabelece que nem toda demanda realmente se efetiva, abrindo a possibilidade de uma superprodução. É interessante notar que essa possibilidade não era aventada pela teoria econômica mais aceita à época (o mainstream de então), que aceitava a chamada “lei de Say” segundo a qual toda oferta gera sua própria demanda. Dessa forma, com a obra de Keynes, retira-se o foco da oferta e o coloca na demanda.

Dito de outra forma, a demanda é que faria girar a roda da economia e uma crise econômica como a vivida na década de 1930 poderia ser combatida e, eventualmente, resolvida, com políticas que visassem ao aumento da demanda efetiva. Mas o que tudo isso tem a ver com Ciro Gomes? Bom, as propostas de Ciro para a economia têm todas elas (ou a grande maioria) clara orientação keynesiana, no sentido de que buscam promover o incremento da demanda, inclusive com forte presença do Estado.

Quando analisamos a demanda (ou consumo) das famílias no Brasil, vemos uma clara tendência de desaceleração a partir de 2008 e, mais acentuadamente, a partir de 2014. Ora, muitos concordam que a existência de um forte mercado interno (com as exportações de commodities), foi fundamental para que a crise financeira, iniciada em 2008, fosse sentida no Brasil com menos intensidade que em outros países.

De lá para cá, este mercado veio se reduzindo sistematicamente devido principalmente ao desemprego, ao escasseamento do crédito e ao endividamento das famílias. Nesse contexto, sabendo que as pessoas “inscritas” no SPC têm grandes restrições ao consumo (e especialmente ao crédito, que é seu grande combustível) e tendo em mente a já referida importância da demanda efetiva para a economia, faz todo sentido elaborar um plano para que as pessoas possam negociar suas dívidas, “tirar seu nome” do SPC e retornar efetivamente ao mercado consumidor.

Não se trata, como muitos pensam, de pagar as dívidas das pessoas com dinheiro público. Pelo que consta em sua proposta, trata-se de orquestrar uma renegociação das dívidas entre credores e devedores, com intermediação dos bancos. Algo perfeitamente possível de ser feito, diga-se de passagem.

Num momento em que parece haver uma tendência ao retorno de políticas protecionistas mundo afora que podem reduzir ou dificultar o comércio internacional e, dada a importância de termos um forte mercado interno como já exposto, a proposta de retirar o nome de devedores do SPC me parece uma ideia até muito boa, bem como qualquer proposta que vise ao fortalecimento do consumo doméstico.

* Economista e Mestre em Estatística.



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Comentários

Jose

14 de Setembro, 2018 | 11:51
Mas não foi exatamente uma politica com essas diretrizes que resultaram no fracasso do governo Dilma? Em vez de Keynes, insistir no erro, as pessoas deveriam buscar saber mais sobre Ludwig Von Mises.
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