10/02/2018 09:25:00

Cantando contra a corrente

Rotulado por Chacrinha como sucessor de Evaldo Braga, Eraldo Reis, resiste à música sertaneja com seu estilo brega.



Elvira Nascimento

Eraldo Reis, o Ídolo Solitário, marketing das gravadoras para contrapor com Evaldo Braga, o Ídolo Negro


José Célio de Sousa*

A tentativa de projetar, criar, produzir e vender artista faz parte da indústria fonográfica. Pode dar certo. Ou não. Quando dá, a fórmula (do sucesso) transforma-se em lucros fabulosos. E a ideia genial, é claro, é logo repetida ou copiada pelo mercado. Também faz parte do negócio. Exemplos é que não faltam. Os The Monkees foram criados em 1965 nos Estados Unidos (basta ver a franjinha na testa dos quatros garotos) como uma cópia fiel dos Beatles.

Chegaram a vender 65 milhões de cópias. No Brasil, o capixaba Paulo Sérgio, morto prematuramente aos 36 anos, em 1980, vítima de um derrame cerebral, foi lançado na cola do conterrâneo Roberto Carlos. Em 13 anos de carreira, vendeu dez milhões de discos. Seu maior sucesso, Última Canção, vendeu 60 mil cópias em apenas três semanas e, até hoje, é lembrado como um dos maiores cantores românticos do país.

Em meados de 1975, o ipatinguense-fabricianense Eraldo Reis foi rotulado como sucessor direto e natural do campeão de vendas Evaldo Braga, por ninguém menos que um dos maiores comunicadores do rádio e da televisão brasileira, Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

Suceder o responsável pelo hit arrasa quarteirão “Sorria, Sorria“, morto dois anos antes num acidente automobilístico no interior fluminense, não era uma tarefa qualquer. Apesar da carreira meteórica, apenas dois discos gravados, mas com estrondoso sucesso, Evaldo Braga, morto aos 25 anos, ainda era um ídolo popular com enorme prestígio em todo o Brasil. O empurrão de Chacrinha no aspirante mineiro a ídolo tinha muito a ver com a estratégia marqueteira das gravadoras de dar continuidade a um estilo musical de acachapante sucesso na época e totalmente oposto à MPB, mais elitizada e engajada politicamente.

A música cafona, ou simplesmente brega, abominada pelos intelectualóides, era adorada e consumida à exaustão pelas classes C e D, que não estavam nem aí para o risinho de desdém dos que achavam que aquilo era lixo puro. Mas artistas como Odair José, Waldik Soriano, Nelson Ned, Fernando Mendes, Evaldo Braga (a lista é imensa) vendiam discos como água e lideravam as paradas de sucesso das rádios. E também tiveram músicas censuradas, sim senhor!, pelo governo militar. No livro Eu Não Sou Cachorro, Não, o historiador Paulo César de Araújo - aquele mesmo que Roberto Carlos proibiu na justiça de publicar sua biografia – mostra que a produção musical brega/cafona faz parte da realidade cultural brasileira tanto quanto a bossa nova e o tropicalismo. Mas, por esnobismo intelectual dos meios acadêmicos, não recebeu o devido respeito e espaço em livros e teses sobre a música brasileira.

Dormindo debaixo de viaduto

No livro de 448 páginas publicado pela Editora Record, Paulo César de Araújo aborda o papel de resistência desempenhado pelos artistas bregas e analisa como muitas de suas composições denunciavam o autoritarismo e a segregação social. A música O divórcio, de Luiz Ayrão, pode ser lida como um basta ao regime militar. Odair José trocou o título de A Primeira Noite, que fala da experiência sexual de um garoto, para Noite de desejos e passou incólume pelas autoridades. Mas, sua Pare de tomar a pílula, não teve tanta sorte. Foi proibida de ser executada nas rádios brasileiras e em toda a América Latina, por pressão da igreja católica. Fernando Mendes teve seu Tributo a Carlinhos, menino desaparecido até hoje, censurado, já que poderia soar como referência aos presos políticos. Em 1974, Benito Di Paula compôs Tributo a um Rei Esquecido, rasgada homenagem a Geraldo Vandré, também proibido.

Pio
Mas, voltemos ao início da carreira de Eraldo Reis. Nascido em Ipatinga, em 1956, foi com a família para Coronel Fabriciano quando tinha apenas pouco mais de um ano de idade, quando seu pai foi trabalhar como tratorista na Serraria Santa Helena e depois na Belgo Mineira. Antes de se apresentar no programa do Chacrinha, Eraldo Reis Jarbas Paulo, era conhecido como Pio, um versátil meia-direita, segundo ele, que jogou no time (extinto) da CAF. Em 1975, depois de trabalhar na Cia. Acesita e Usiminas e imitar Evaldo Braga em programas de calouros, foi com a cara e a coragem tentar ser artista em São Paulo. Durante mais de um ano passou sérias dificuldades financeiras na capital paulista. “As pessoas me viam cantar na televisão e não sabiam que eu dormia debaixo do Viaduto Santo André. Antes de ir para a TV eu trocava de roupa em um bar”, relembra Eraldo Reis, que além de cantor é também compositor e produtor musical.

Na Discoteca do Chacrinha, ainda na extinta TV Tupi, sempre cantando músicas de Evaldo Braga, Eraldo Reis foi passando pelo teste da buzina até chegar à final do Calouro Exportação. Aí já estava consagrado como o “sucessor de Evaldo Braga” pelo Velho Guerreiro e foi convidado para assinar um contrato (8 de julho de 75) com a gravadora paulistana Escala Jaboti, que deu continuação ao marketing iniciado por Chacrinha. Eraldo Reis passou a ser o Ídolo Solitário, já que Evaldo Braga foi consagrado como o Ídolo Negro. Seu primeiro registro em vinil foi com a música Meu Passado, no LP As 12 Especiais, onde cada um dos cantores selecionados gravou uma faixa. Ainda em 1975, em outubro, gravou o compacto simples com as músicas Meu Passado e Nosso Amor Nunca Terá Fim, composição esta do próprio Eraldo Reis e de José Carlos.

Contrato com a gravadora Copacabana

Finalmente, em 1977, grava seu primeiro LP, Mundo Deserto, com três músicas de sua autoria, Por que Senhor?, Porque Te Amo e Volte Logo Querida. O trabalho foi relançado três vezes e virou um compacto simples com as músicas Mundo Deserto e Só ao Seu Lado Fui Poeta. Em 1980, Eraldo Reis, que tem quase trinta músicas de sua autoria gravadas por outros cantores, vai para o selo Beverly, da gravadora Copacabana, onde relança sucessos do início da carreira em CDs simples e duplos.

Os discos vendem bem e, pela própria Copacabana, grava o LP Eraldo Reis/O Ídolo Solitário, que também chama a atenção do público. Faz uma serie de turnês pelo interior do país, mas não consegue emplacar o mesmo número de vendagens do seu “eterno ídolo”, Evaldo Braga. Grava, no entanto, quatro músicas (Relembrando Você, Esperando Você Voltar, Você Não Presta Meu Amor e Minha Decisão) no LP Os Reis do Norte e Nordeste, aproveitando o sucesso obtido nas duas referidas regiões.

Na década de 1990, sempre fazendo shows e apresentando-se em comícios e até para garimpeiros, Eraldo Reis fixou-se por um tempo em Porto Velho (RO). Foi até contratado para a campanha do ex-senador Olavo Pires, assassinado após ter vencido o primeiro turno das eleições para governador de Rondônia. No início dos anos 2000 foi para a Europa e tentou a sorte por mais de dez anos em Portugal, mas acabou voltando para o Brasil.

Seu contrato com a Copacabana nunca foi desfeito, embora as atividades do selo brasileiro tenham sido extintas nos anos 1990. Ao contrário de outros cantores, Eraldo Reis (que tem todos seus discos no YouTube e e-mail eraldoreis10@hotmail.com) não mudou seu estilo e enfrenta de peito aberto – quase sozinho, fazendo jus ao título de Ídolo Solitário - o monopólio da música sertaneja, que há mais de 20 anos domina o país. “Vou continuar compondo e cantando minhas músicas românticas até Deus me der forças”, confia o artista; no momento em Coronel Fabriciano, aguardando novos convites para shows e, quem sabe?, entrar em estúdio para gravar um novo trabalho. Tomara que tudo dê certo.

*Colaborou com a produção da reportagem especialmente para o Diário do Aço



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