09/02/2018 16:25:00

USIMINAS (A PAZ INVADIU O MEU CORAÇÃO...)

Ronaldo Soares *



Estou falando do surpreendente fim da disputa pela governança corporativa da Usiminas”

Quando Gilberto Gil escreveu e Zizi Possi deu voz aos versos de “A Paz”, eu nem poderia imaginar que eles caberiam ao mundo corporativo um dia. Muito menos, especificamente, a uma contenda de quase quatro anos entre sócios de uma empresa de capital aberto. Estou falando do surpreendente fim da disputa pela governança corporativa da Usiminas, dois dias antes do carnaval, uma festa de alegria e confraternização entre brasileiros que poderá incluir dois estrangeiros nesse ano: os japoneses e os italianos.

Confesso que não conseguia enxergar um final feliz que não fosse a saída de uma das partes do negócio Usiminas, quando em 2014, toda a diretoria indicada pela Ternium/Techint (grupo italiano que em 2012 adquirira, por indicação dos sócios majoritários da Usiminas, as ações da Camargo Corrêa e Votorantim) foi demitida alegando a constatação por auditorias interna e externa (Delloite e Ernst Young) de que eles teriam recebido mais do que o previsto pela política de remuneração da companhia (bônus) expondo Julian Eguren, Marcelo Chiara e outros membros da diretoria indicada pelo conglomerado siderúrgico internacional.

A exoneração da diretoria gerou uma disputa com anos de idas e vindas, discussões acirradas, trocas de comando e total judicialização da gestão da companhia. Primeiramente, Romel Erwin de Souza assumiu por indicação da Nippon Steel os destinos da siderúrgica em substituição à Eguren. Depois a eleição de Sérgio Leite, não reconhecida pelos japoneses, em seguida, tornando o mandato do CEO breve (pouco mais de três meses em 2016) quando novamente Romel Erwin de Souza foi reconduzido à presidência. Este, por meio de acusações de medidas contrárias ao estatuto da empresa foi retirado do cargo pelo conselho de administração. Esse conselho aciona a assembleia de acionistas e elege Sérgio Leite o novo presidente, isso já em 2017.

Desde o início, a Nippon tem levado as disputas para os tribunais e chegou a cinco ações em tramitação no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Recentemente, estava marcado o julgamento de uma dessas ações, mais precisamente no dia 24 de janeiro. O julgamento foi adiado para o próximo dia 26, o que não será mais necessário, uma vez que todas as ações de ambas partes envolvidas serão retiradas conforme prevê o acordo de acionistas assinado na tarde de quinta-feira (8), em Luxemburgo, no tribunal de arbitragem Franco-Brasileiro, onde a paz foi selada por meio de um acordo de governança entre a Ternium e a Nippon Steel.

Esse acordo pôs fim à disputa inédita no Brasil entre sócios de uma companhia que possui ações listadas em bolsa. O acordo propõe, entre outras situações, um mecanismo de alternância de poder a partir das próximas eleições em abril de 2018. A partir dessa, a Ternium indicará o CEO e a Nippon Steel o presidente do Conselho Administrativo (a manutenção do presidente Sérgio Leite é dada como certa). Em 2020, a indicação permanecerá com a Ternium que poderá ou não reconduzir novamente Sérgio Leite.

Em 2022, a indicação passará a ser da Nippon Steel. A novidade é que a reivindicação mais importante realizada pela Ternium e objeto de recusas em outras tentativas de pacificação foi finalmente aceita e a partir da gestão da Nippon, a qualquer momento, o mecanismo conhecido por “cláusula de saída” permitirá que uma das partes possa vender suas ações para o outro sócio com preço de mercado. Caso o sócio não exerça a compra a outro sócio poderá ofertar com ágio de 5% a aquisição do outro (alguém sai do negócio).

Agora vamos acompanhar a única briga da qual a Usiminas deveria participar: a briga do mercado. Não sou Zizi Possi, mas acredito que tanto Bassetti pela Ternium (presidente da Ternium no Brasil) e Egawa pela Nippon (presidente da Nippon nas Américas) poderão fazer coro e cantar comigo: “A paz invadiu o meu coração...”

* Consultor


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