13/10/2017 16:42:00

O texto e o contexto de um homem nu: afinal, toda nudez será mesmo castigada?

Beto Oliveira



Desde 1988 há, no Brasil, uma Federação chamada FBrN que trabalha com o objetivo de “coordenar, defender, difundir e desenvolver a cultura e a prática do naturismo” no país. A entidade, usando texto da Federação Internacional de Naturismo, à qual é filiada, define a proposta como “um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela nudez social, que tem por intenção encorajar o auto respeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente”. Nos espaços e eventos reservados ao naturismo, sejam praias, associações ou clubes, homens, mulheres, e mesmo crianças, se reúnem e interagem sem o uso de roupas. Em Massarandupió, litoral da Bahia, é possível ver, em áreas apropriadas, famílias inteiras nuas na praia. Crianças fazem seus castelos de areia, adultos bebem no bar, jovens se bronzeiam no chão. Todos nus. No entanto, embora haja interação e contato físico, é vetado, no primeiro artigo do código de ética da FBrN, atos de caráter sexual ou obscenos nas áreas públicas. Portanto, há ali um contexto em que nudez e sexualidade se separam.

De forma semelhante, povos indígenas mantiveram, e alguns ainda mantêm, o costume de viverem nus ou com partes do corpo que consideramos íntimas expostas. Em 1500, um escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral escreveu uma carta ao rei de Portugal descrevendo as terras do além-mar e solicitando, num gesto que parece ter perpetuado em solo brasileiro, o favorecimento de seu genro que respondia na prisão por assalto. Quando chega o momento de descrever o povo que encontrou, Pero Vaz de Caminha revela seu espanto: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. O que causava vergonha ao escrivão, homens e mulheres, ao lado de crianças, exibiam tranquilamente. Também os povos indígenas habitavam, e ainda habitam, um contexto que desvincula nudez e sexualidade.

Mas isso que pode parecer estranho a alguns, acontece cotidianamente em muitos lares. Muito comumente, pais e mães se colocam nus diante de seus filhos, por exemplo na hora do banho. Mas nesse caso seria impossível associar sexualidade à nudez, já que estamos falando de uma relação entre pais e filhos, correto? Não parece, uma vez que, segundo pesquisa do Hospital das Clínicas da USP, 88% das vítimas de abuso sexual foram agredidas por pais, padrastos, tios ou primos (nessa ordem). Ou seja, por mais duro que seja reconhecer, é mais provável uma criança ser abusada por um familiar do que por um estranho. Todavia, o que faz de um pai um pedófilo não é a sua nudez. E o que faz sua nudez não ser um abuso não é seu grau de parentesco. Há aqui novamente um contexto que distancia nudez e sexualidade e tanto uma nudez pode ocorrer sem que haja pedofilia quanto um abuso pode ocorrer sem que haja exposição da nudez. A marca da atitude pedófila está em outro ponto, não na nudez.

Também em museus e teatros a nudez faz sua aparição em quadros, esculturas ou por meio do próprio corpo do artista. Recentemente, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, uma performance possibilitou que o público (inclusive crianças, segundo o museu acompanhadas de seus pais) interagisse, de forma não sexual, com o corpo de um artista nu. O MAM ressalta que a obra, que não tinha conteúdo erótico, alertava de antemão sobre a nudez. Ainda assim, o museu vem sendo acusado de pedofilia e outros crimes. O naturismo, os povos indígenas, ou ainda o banho familiar, são exemplos de contextos específicos em que a nudez nada tem a ver com a sexualidade. Mas, e o museu? Seria o museu um espaço de produção de variados contextos em que o artista estabelece com o público pactos e relações distintas? Ou em um museu toda nudez será, sempre e necessariamente, uma atitude sexual a ser castigada?

* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.



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Comentários

Fabrício da Silva França

13 de Outubro, 2017 | 21:28
Se toda arte tem a pretensão de causar reflexão, qual foi o objetivo da exposição do museu, se a nudez é algo tão cotidiana, está presente nas tribos, na prática naturalista e durante o banho de pais e filhos? Não se engane, a arte não perde tempo. Ela não lançaria mãos a algo que não fosse tão delicado, por que no fundo, tudo o que quer é aparecer. E conseguiu passar dos limites.
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