20/09/2017 16:13:00

Setembro Amarelo e a importância do diálogo para a prevenção do suicídio

Camila Cury



Todos os dias mais de 30 brasileiros buscam a morte voluntária. No mundo todo estima-se que 60 mil pessoas busquem pelo mesmo objetivo. Desde os anos 1980 tivemos um aumento de 60% no número de pessoas que consumaram o desejo de tirar a própria vida. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), só no Brasil, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos chegou a 5,6 por 100 mil habitantes em 2014. A OMS destaca que esta situação toma uma dimensão ainda mais estarrecedora se considerarmos os dados relativos às tentativas frustradas, que não constam nas estatísticas, além do fato de que muitos países não enviam dados ou não os apuram de maneira confiável, por não possuírem um trabalho sério de mapeamento e acompanhamento da morte voluntária.

Atualmente, a conscientização sobre a prevenção do suicídio tem se intensificado no chamado Setembro Amarelo, mês em que o assunto é tratado com mais ênfase. Esta é uma grande conquista se considerarmos que este assunto ainda é silenciado, camuflado, pouco discutido e tratado de maneira velada. E principalmente um assunto que necessita de voz: de quem alerta, mas de maneira destacada a voz de quem passa por uma dor, mas não sabe elaborá-la ou torná-la audível!

Falta de dinheiro, solidão, problemas familiares, bullying, dificuldade em lidar com a dor... Vários gatilhos podem ter sido acionados, e a dor emocional vai ficando intensa, pesada, sufocante.. até consumar-se em uma tragédia. A pessoa, antes de se suicidar, deixa vestígios de que pretende fazê-lo. “Seria melhor não existir”, “Não vejo graça em nada”, “A vida, para mim, é sempre cinza, sem brilho...”, “Quero que o mundo exploda!”, frases como estas, o aumento excessivo no consumo de álcool, drogas, mudanças no peso, na maneira de dirigir, automutilação, falar muito sobre a morte... A melhor forma de evitar esta tragédia é detectar quando a possibilidade existe e agir a tempo.

A juventude é uma fase que deveria ser nutrida pela felicidade das descobertas, das possibilidades, do idealismo que faz o jovem crer que pode mudar o mundo, do encantamento pelas amizades, por isso mesmo o aumento no número de suicídios neste período da vida intriga profissionais que estudam a morte voluntária. Ter um comportamento, partes do corpo, cor da pele, peso, cabelo, voz, orientação sexual etc., desviante do que se julga “normal” é visto como um dos problemas centrais e disparadores para a dor emocional intensa e a busca por uma solução para ela, mesmo que drástica. Mas, assim creio, analisarmos este aspecto é pensarmos numa camada superficial do problema. As raízes são mais profundas.

A melhor forma de prevenir o suicídio é cuidar dos desmoronamentos emocionais das pessoas, inclusive antes que ocorram. É importantíssimo um trabalho preventivo, focado no desenvolvimento e potencialização de competências e habilidades socioemocionais, como autoconhecimento, autovalorização, autoestima elevada, amor próprio, superação de ofensas, aprender a trabalhar perdas e frustrações etc. O diálogo é essencial para construirmos pontes com o outro, e, igualmente, o aprendizado sobre como utilizar a comunicação para torna-la efetiva e assertiva.

O diálogo com um jovem é bem diferente do que se desenvolve com uma criança ou adulto. O jovem possui uma linguagem peculiar e uma forma de pensar e elaborar suas ideias. É necessário que a família tenha um espaço de diálogo que respeite estas peculiaridades, sendo acolhedora e promovendo reflexões que possam colaborar para que o jovem aprenda a enxergar-se valioso, capaz de enfrentar suas dificuldades e de conquistar seus sonhos. O diálogo saudável, permeado pela escuta atenta ao outro, permite ao ser humano vivenciar o sentimento de pertencimento a um espaço, quer seja este familiar, de amizade, de amor ou profissional.

O Setembro Amarelo é uma campanha que pretende dar mais visibilidade e orientar a maior quantidade possível de pessoas sobre a importância de falar sobre o suicídio. Para atingir a população, são feitas ações de rua, como caminhadas e passeios de bicicleta que conscientizam as pessoas sobre a importância de conversar sobre o tema e procurar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.

Se você conhece alguém que tem sintomas de depressão, fala frequentemente sobre morte ou apresenta algum dos comportamentos abordados acima, não hesite em procurar ajuda especializada.

* Psicóloga e Diretora Geral da Escola da Inteligência, Programa Educacional idealizado pelo renomado psiquiatra, escritor e pesquisador, Augusto Cury, que tem como objetivo desenvolver a educação socioemocional no ambiente escolar.



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