21/12/2016 15:48:00

Os tiros na Turquia e o Anjo do progresso

Beto Oliveira





Na segunda, 19, durante uma exposição de fotos em uma galeria de arte na Turquia, o embaixador russo, Andrei Karlov, foi assassinado por um homem que, após os tiros, gritou: “Não esqueçam Aleppo, não esqueçam a Síria. Vocês não ficarão seguros até que nossas cidades tenham segurança”. O homem, que se apresentou como militante do jihad (guerra santa), foi em seguida também executado. Rapidamente, houve quem relacionou o fato com o assassinato de Francisco Ferdinando, príncipe austro-húngaro, em Saravejo. Assassinato que fez com que o império austro-húngaro declarasse guerra à Sérvia; o que, por sua vez, através de complicadas alianças firmadas entre países europeus, acabou desencadeando a Primeira Guerra Mundial.

Ainda é cedo para prever as consequências da morte de Karlov. Um dia, a história poderá contar a real importância desse evento nos acontecimentos posteriores do mundo. Por enquanto, o que temos é especulação e uma torcida para que as consequências não sejam nem de perto semelhantes ao que houve em 1914. Ainda que a especulação prevaleça nesse momento, a agitação e as perguntas que começam a ser feitas nos levam a pelo menos duas observações interessantes em relação à história da humanidade.

A primeira é a importância de revisitarmos o passado para termos ao menos alguma pista do futuro. Quem sabe termos algumas previsões que ultrapassem um pouco a pura especulação. Como alerta o historiador J.M. Roberts, “A história distante ainda se agarra às nossas vidas e ao nosso pensamento”. De forma que, para entendermos o presente, é inevitável uma compreensão do passado, dos acontecimentos que já levaram a catástrofes, a guerras ou a hecatombes. Logicamente não se trata de nenhuma certeza, nem futurologia, mas, como dito, de parte fundamental da nossa compreensão do mundo, o que justifica esse olhar para o passado que o evento despertou.

Outro ponto que chama a atenção nesse movimento de olhar o passado, para interpretar os fatos presentes, é a maneira como a história nos atravessa. É fascinante como estamos dentro desse percurso sem muitas vezes nos dá conta da gravidade de um evento ou por outro lado exageramos a importância de um acontecimento que não apresenta graves consequências no curso do mundo. Quantas almas, de lugares distintos, não dormiram tranquilas após a morte de Francisco Ferdinando, sem minimamente prever os efeitos desse acontecimento em todo o mundo? Um ótimo arremedo desse fato é encontrado no diário de Kafka, onde podemos encontrar, em uma página: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. – À tarde, natação”. A ironia kafkaniana nos apresenta um acontecimento que mudou a história do mundo, seguido de uma banalidade de quem vive sem se dar conta da importância histórica dos fatos.

Walter Benjamim encontra em uma tela de Paul Klee uma imagem forte para o progresso. Na tela, um anjo parece querer se afastar de algo que ele encara fixamente. Para o filósofo, assim é o anjo da história: tem o rosto voltado para o passado e lá onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula ruínas e as joga aos seus pés. O anjo bem que gostaria de se deter para despertar os mortos, mas uma forte tempestade o lança para o futuro. E assim o anjo segue sua história, olhando fixamente para o passado e vendo esse acontecimento único que é o tiro em Ferdinando e a Primeira Guerra Mundial, enquanto nós vemos uma cadeia de acontecimentos sem saber bem a relação entre eles. O assassinato do embaixador russo é um desses acontecimentos, a questão é saber como isso se juntará nesse evento único que o Anjo do progresso observa.

*Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do CEPP (Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço). Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.


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