Wôlmer Ezequiel

Rapaz alega não ter para onde ir, pois não consegue emprego
TIMÓTEO – É do alto da igreja matriz do bairro Timirim que Deivison Gonçalves Freitas, 29, observa a rotina da cidade e leva uma vida de abandono e solidão. Transformou em abrigo o espaço disponível nas quatro entradas da basílica, sua única moradia, há cerca de dois anos. Incomodados com a situação, alguns fiéis buscam apoio e alguma solução para a vida do jovem.
O rapaz não sabe explicar o motivo de ter saído de casa para morar na rua. Quando questionado a esse respeito, diz ser um estudante nascido em Timóteo, e faz breves comentários sobre alguns parentes e bairros onde já viveu. A tranquilidade e a beleza do lugar foram os motivos que levaram Deivison Freitas a escolher, para moradia, os vãos das grossas paredes que reproduzem as colunas das basílicas romanas da igreja do Timirim.
Ele afirma já ter procurado emprego por várias vezes, mas nunca conseguiu ser contratado e, com isso, não tem para onde ir. Deivison revela a vontade de voltar para a família, mas alega ser órfão de pai e desconhecer o paradeiro da mãe. “Eu gostaria de ser levado para algum lugar, uma família ou um abrigo porque, aqui, eu não tenho roupas e nem comida todo dia”, relata.
Quando não recebe alguma doação de alimentos, Deivison vai até a rua ou na porta do Hospital Vital Brazil para pedir alguma doação. A recepção do hospital também se tornou um refúgio para o rapaz em certos horários do dia, para assistir televisão ou tomar uma água gelada.
Problemas
O drama vivido pelo jovem acabou por gerar uma situação desconfortável para os cuidadores voluntários da igreja. Membro da comunidade católica de Timóteo, Ernesto Gomes Ferreira, 49, reclama dos transtornos causados pelo morador na porta da igreja. “Toda semana, fica muita sujeira e mau cheiro ao redor da igreja. Ele costuma fazer suas necessidades fisiológicas até na rampa e nas escadas perto das portas”, pontua.
Em dias de casamentos, batizados e outras celebrações, o rapaz costuma causar contratempos para os voluntários da matriz. “Muitas vezes, quando chegamos de manhã para a celebração da missa, temos que acordá-lo, para que saia da porta da igreja”, acrescenta. Conforme Ernesto, vários setores públicos foram procurados para avaliar o caso de Deivison, mas até o momento não surgiu uma solução definitiva para acabar com o drama do rapaz.
Wôlmer Ezequiel

As únicas companhias do morador de rua são o cachorro e uma ninhada de gatos
Abandono
Em contato com o DIÁRIO DO AÇO, a secretária municipal de Assistência Social, Patrícia Dias, confirma que Deivison Freitas é natural de Timóteo, e já conviveu com mãe e irmãos em seu próprio lar. Entretanto, sua mãe teria se mudado do município, para fugir à responsabilidade de cuidar do filho. “Existe, neste caso, uma situação de conflito familiar. Ele se desagregou da família, mas os parentes ainda são responsáveis”, declarou.
Ainda de acordo com declarações da secretária, uma equipe da PMT conseguiu localizar a mãe de Deivison, mas ela se recusou a cuidar do rapaz. “E, para não ser abordada novamente pelos servidores municipais, a mulher teria se mudado para outro município, fugindo da situação”, enfatiza a secretária.
Conforme Patrícia Dias, diante dessa recusa, o município decidiu mover uma ação, junto ao Ministério Público, na tentativa de chamar à responsabilidade a família do rapaz. “A mãe foi clara na última visita técnica realizada, ao destacar que, se for obrigada a cuidar dele, ela vai se mudar novamente de cidade”, contou Patrícia Dias.
Tratamento
Segundo entrevistas feitas pela equipe da Assistência Social, Deivison Freitas apresenta sintomas de transtornos mentais e precisa passar por uma avaliação médica mais aprofundada. “Já marcamos várias consultas para submetê-lo a essa avaliação. Mas quando chega o dia dos exames, ele se esconde”, lamenta Patrícia Dias.
Por não se tratar de um quadro crítico, a internação não é permitida, conforme tese defendida pela luta antimanicomial. Nessa situação, o mais recomendável é o acompanhamento médico, com dosagem orientada de remédios. O cuidado da família é avaliado por Patrícia Dias como algo fundamental nesse processo. “O nosso atendimento não se encerrou. Vamos continuar tentando, mesmo porque estamos ainda aguardando a posição do Ministério Público” concluiu a secretária.
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