Padre Francisco Guerra (*)
A literatura bíblica e os chamados livros apócrifos que contam a história da salvação, falam de um casal, chamado Joaquim e Ana, como sendo os pais de Maria, a Mãe de Jesus. No calendário cristão católico, seu dia foi 26 passado próximo e, com ele, se celebrou também o dia dos avós. A gente sempre tem na imaginação que as pessoas enviadas de Deus, no passado, eram velhinhas sem nenhum projeto de vida e velhinhos barbudos sem nada a fazer.
Inclusive, o próprio Deus Pai criador, na concepção de muitos, é um homem barbudo e severo que vai castigar a humanidade. É uma visão antropomórfica de Deus. Mas tudo bem. Quero falar do idoso ou da idade do bem viver, ou da velhice sem frescura e sem preconceito, da melhor idade como queira. É preciso dar ênfase nesta fase belíssima da vida em que a pessoa acumulou sabedoria, competências, ofertou o melhor de si para a construção da sociedade, mas ainda, no Brasil, não recebe o valor que merece.
Há alguns anos, o ex-ministro da Economia, Delfim Neto, disse: “o Brasil ficará velho antes de ficar rico”. A profecia ou acertada análise social constata a veracidade do fato. O número de idosos cresce rapidamente. O Brasil está se desenvolvendo em muitos aspectos, mas ainda continua portador de uma pobreza enorme no que se refere às necessidades básicas de milhares de cidadãos como atestam os últimos dados das pesquisas do governo.
Há uma dívida social com as camadas mais velhas da sociedade e, pelo visto, não será paga. Apesar da longevidade, ou seja, da expectativa de vida estar aumentando no Brasil, da parte do governo há sempre uma defasagem, por exemplo, nas aposentadorias.
Também milhares de pessoas mais velhas, apesar da sua competência, não encontram mais lugar no mercado de trabalho. Há um lado bom nessa história. Os avanços nas novas biotecnologias, na indústria farmacêutica, alguns projetos sociais, pastorais voltadas para a pessoa idosa, avanços nas especialidades médicas, reeducação alimentar, incentivo na saúde física, tudo isso vai se transformando numa cultura e criando uma consciência que facilita o próprio cidadão redescobrir a importância de viver bem para envelhecer bem e, porque não dizer, morrer bem.
Não se pode esquecer que ninguém fica para semente nesta terra. A sociedade precisa superar alguns mitos e preconceitos em relação ao idoso para que ele seja feliz, bem acolhido, amado e receba todos os cuidados de que necessita, seja da família ou do Estado. Superar preconceitos sobre tal idade favorece a qualidade de vida de quem já viveu um pouco mais. Por exemplo, as pesquisas mostram que não é verdade que a maioria dos idosos vive em países ricos; que homens e mulheres envelhecem da mesma forma; que todos os idosos são frágeis e inúteis; que eles são um peso para a família e que acarretam despesas para o Estado.
Pelo contrário. Hoje, na configuração de novas famílias, milhares de crianças e jovens vivem nas casas dos avós e sobrevivem de suas aposentadorias. Inúmeras mães só conseguem ter uma profissão porque são os avós que criam seus netos e deles cuidam muito bem. O Estado demorou, não fez mais que a obrigação, mas com a Política Nacional do Idoso através da Lei n. 8.842, de 4 de janeiro de 1994, com o Conselho Nacional do Idoso, visando assegurar os direitos sociais e criar condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade, possibilitou perspectivas de qualidade de vida para essa grande camada da população.
Mas, neste país de dimensões continentais, essas leis nacionais nem sempre se traduzem em políticas públicas para um bom atendimento dos idosos nas regiões do interior. Os municípios são muito incompetentes na aplicação da lei. Faltam projetos, interesse político, boa vontade e sobra também incompetência dos gestores e seus assessores. Infelizmente.
As famílias e os responsáveis pelos idosos bem como os próprios precisam descobrir e conhecer mais os seus direitos. Além de conhecer, por exemplo, os direitos previstos no Estatuto do Idoso, Lei n. 10.741, de 1º de outubro de 2003, para fazê-los valer nas horas de necessidade, o idoso e seus tutores precisam aprender a arte de envelhecer cuidando da vida em todas as suas dimensões e momentos e tomar conhecimento das limitações que esta idade impõe.
As leis citadas asseguram que o envelhecimento é um direito personalíssimo e sua proteção um direito social. Não se pode abrir mão do que já foi conquistado porque na prática há ainda muita falha na aplicação das leis.
Alguém disse com muita propriedade: “Envelhecer não é um ato cego. Podemos escolher como envelhecer. Temos muito que aprender a partir das luzes do entardecer na vida, na sabedoria que brota da experiência que entende a vida não como um problema a ser resolvido pelo computador, mas como um mistério a ser descoberto e partilhado na gratuidade do amor a cada dia! Esse é o segredo do envelhecer bem de uma forma graciosa, elegante e digna, acrescentando mais qualidade e vida aos anos que nos foram concedidos viver”.
*Pe. Francisco Guerra é Mestrando em Bioética, em Ipatinga (MG).