Este texto foi um amigo padre que me enviou. Trata-se do comentário do evangelho de São Marcos, capítulo 6, sobre o convite que Jesus faz aos discípulos para que caminhassem até um lugar deserto para descansar. Fiquei feliz com o texto, pois vivemos em tempos de stress, correrias e cansaços que geram doenças físicas e psíquicas.
Sem falar das mortes no trânsito fruto da correria e da pressa para se cumprir responsabilidades em tempos recordes, bem como a falta de tempo sempre justificada comprometendo as relações afetivas, as amizades, o amor familiar e até mesmo o cuidado com a própria saúde.
A ditadura do aproveitamento do tempo para se fazer coisas e alcançar objetivos chega a gerar peso de consciência quando imaginamos momentos de folga e descanso. A filosofia da prosperidade gera em nós a consciência de que somos máquinas que nasceram para produzir. É preciso mudar essa mentalidade.
Por escrever essa coluna aos domingos, dia que tem um sentido religioso, entendo que esse texto terá um valor para todos os leitores deste jornal. Aliás, a palavra domingo significa em latim “dia do Senhor” e sugere o dia do repouso e do descanso para as pessoas, recordando que Deus ao criar o mundo, no sétimo dia descansou.
Ainda que seja uma metáfora, tem um valor antropológico inquestionável. Vamos então ao que o padre me enviou: “É comum medir as pessoas pela sua capacidade de trabalhar e produzir. Por que não definir as pessoas pela sua capacidade de descansar? Só quem aprendeu a arte de descansar sabe trabalhar e relacionar-se com verdadeiro humanismo. ‘Diz-me como descansas e eu te direi como trabalhas e tratas os outros’.
O descanso humaniza o trabalho e o clima das relações que cultivamos com os outros. Descansar é, portanto, uma questão de justiça social, um imperativo de caridade fraterna. Muitas vezes os outros são obrigados a pagar a fatura do nosso cansaço, do ativismo em que nos envolvemos.
Tornamo-nos ‘cansativos’. Só quem vive reconciliado, em primeiro lugar consigo mesmo, é que pode descansar como Deus manda. O descanso não é uma fórmula mágica de relaxação dos músculos e nervos, uma receita automática de ritmo biológico. É, sobretudo, um modo construtivo de encarar a vida, um clima de paz interior que se cultiva, um coração disposto a amar em todas as estações, sem condições nem fronteiras.
Não se trata de ociosidade egoísta, mas do cultivo da paz e da alegria, ao serviço dos outros. A própria palavra entretenimento indica o desejo de não parar. É a busca de algo que nos distraia para que não possamos estar totalmente presentes. A diversão nos mantém na superfície de nós mesmos, evitando o confronto com as grandes questões da vida. A pergunta que as pessoas fazem no descanso “o que vamos fazer hoje?”, já vem marcada pela ansiedade.
E sonhamos com longevidade quando não sabemos o que fazer numa tarde de domingo. É altamente significativo que a Sagrada Escritura, logo no início do Gênesis, nos apresente Deus descansando dos trabalhos da Criação (Gn.2,2-3).Todo esforço precisa seu descanso e toda atividade pede uma parada. Não há tensão que não exija um relaxamento, nem atividade continuada que não peça uma recreação. Os cansaços acabam nos revelando que em nossa vida ativa estamos amputando certas dimensões do humano.
É sintomático o fato de recorrermos frequentemente ao uso da linguagem da máquina para expressar o que buscamos com o descanso: ‘desconectar’, ‘tirar da tomada’, ‘recarregar a bateria’, ‘recuperar a energia’, ‘abastecer o motor’... Sutilmente, expressamos deste modo como nos percebemos em nossa realidade cotidiana e até que ponto estamos suportando níveis intoleráveis de saturação e de ativismo.
Jesus sentia os cansaços e as pressões, mas ao mesmo tempo sabia fazer ‘paradas’ para recuperar as forças, para retomar o contato com o sentido de sua vida e de sua missão, para ser Ele mesmo. Ele possuía uma lucidez que proporcionava uma visão profunda das coisas, no clima de uma paz sempre buscada. Para Jesus, o descanso, entre outras coisas, era um momento de restauração e reabilitação pessoal que lhe permitia mergulhar de novo no cotidiano com maior criatividade”.
O descanso nos conserva humanos. Ele ajuda a recuperar um ritmo de vida mais humanizante: recupera a pessoa e sua capacidade de estabelecer relações gratuitas consigo mesmo, com os outros, com Deus e com a natureza e seus ritmos. A quem vai parar um pouco nos próximos dias tenham felizes férias.
“Descansar é uma arte. Viver descansadamente, uma arte ainda mais delicada” (J.A. Guerreiro)
PE.Francisco Guerra
Mestrando em Bioética
Ipatinga - MG