15/07/2012 - 00h00
Pipoqueiro compositor sonha em gravar disco
Aos 53 anos, Antônio Candence guarda canções inéditas em fitas K-7


Wôlmer Ezequiel
antônio candence
Antônio Candence revela que nunca fez música sobre seu ofício

IPATINGA - Muitos talentos artísticos estão onde menos se espera. Pintores, cantores, compositores, escritores, atores. Enfim, vários são os artistas descobertos a todo instante, em diferentes lugares e funções profissionais. Em Ipatinga, o pipoqueiro José Antônio Rodrigues, 53 anos, morador do bairro Jardim Panorama, é compositor por paixão há vários anos. E, apesar do talento para cantar e escrever, ele segue fazendo sua deliciosa pipoca na esperança de, um dia, realizar o sonho de gravar seu disco.

Enquanto trabalhava na porta do Colégio São Francisco Xavier, no bairro Cariru, José Candence, como ele gosta de ser chamado, conversou com o DIÁRIO DO AÇO. De semblante tranquilo e sorriso no rosto, Candence contou sua história de paixão pela música, enquanto atendia os alunos. Entre uma venda e outra, um gesto de carinho. As crianças aparavam as duas mãos para receber um pouco da delícia irresistível, cujo tempero Antônio Candence não revela a ninguém. Durante a conversa, a reportagem também entrou na degustação.

Paixão
Antônio Candence revela que é fã do Amado Batista e cresceu ouvindo música de raiz. Há muitos anos, conta que foi a uma festa onde estava o seu ídolo musical. Foi assim que tudo começou. “Era 1989. Quando cheguei de lá fiz minha primeira música ‘Amigo Criança’. Em 1991, eu coloquei algumas músicas minhas em uma fita K-7 que tenho até hoje”, relatou o compositor.

Criação
Antônio Candence escreve e canta, mas não sabe tocar nenhum instrumento. “Não toco nem galinha no terreiro”, brincou. Mas depois de criar a letra, o compositor insere a melodia, balbuciando sons. Depois, ele grava e guarda a canção em K-7. “À noite, quando perco o sono levanto, escrevo e no outro dia coloco a melodia. Tenho 26 músicas no ponto de gravação e outras por terminar”, comentou o cantor, cujo timbre de voz lembra o de Amado Batista.


Wôlmer Ezequiel
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Num gesto de carinho, Antônio Candence sempre distribui punhados de pipoca para estudantes

Inspiração
O compositor tem apenas o segundo ano primário, mas garante que escreve muito bem, considerando a sua formação. O segredo, segundo ele, é ler muito. “Gosto de ler revistas, jornais. E isso me ajuda com o vocabulário. Os outros falam que escrevo bem. Estou sempre tentando melhorar”, garante.

Disco
O maior sonho de Antônio Candence é gravar as suas canções em um CD. Show ele ainda não fez. “Eu sonho fazer shows, mas hoje, nem por muito dinheiro, eu faria, porque não tenho um disco para oferecer. Acho que queimaria o meu filme. Depois do disco gravado, faço shows até de graça. Porque não sobrevivo da música e sim da pipoca”, salientou.

Profissão
Sobre o ofício de pipoqueiro, Antônio Candence diz que aprendeu a fazer a iguaria aos 13 anos de idade. “Eu era pipoqueiro em Caratinga, naquela época. E nunca mais esqueci. Aqui, eu trabalhava como motorista, mas quando fiquei desempregado, em 1985, mandei fazer o carrinho de pipoca e comecei a batalhar”, lembrou.

De acordo com ele, a rentabilidade da função é variável. “Tem dia que vende, tem dia que não. No mês, minha renda não chega a um salário mínimo. Mas minha despesa é baixa, então dá pra sobreviver”, informou o compositor, que mora de aluguel. Antônio Candence vende pipoca na porta do CSFX, da igreja católica do Cariru, e no Teatro Zélia Olguin.

 

Uma música em 10 minutos

 


Antônio Candence revela que sua inspiração está ao seu redor. “Gosto de escrever músicas que falam sobre natureza, criança e sobre o cotidiano”, definiu. Foi assim que nasceu a canção “Menina na Gangorra”, por exemplo. Candence garante que a compôs em dez minutos. “Certo dia, falei com minha ex-esposa que queria comer macarronada. Ela pediu que eu buscasse extrato de tomate. Fui buscar. Faltavam 10 minutos para 11h. Antes de chegar à mercearia, vi uma moça gangorrando dentro do quintal. Parei por uns segundos e fiquei observando, comprei a massa de tomate e fui imaginando uma música. Quando cheguei em casa, nasceu a canção ‘A menina e a gangorra’”, destacou.

Perguntado sobre o significado da música em sua vida, Antônio Candence é taxativo: “A música significa tudo. É um meio de estar alegre, de bem com tudo e todos. A pessoa tem que estar inspirada para o lado do bem, se ela tiver inspirada para o mal, não vai realizar nada na vida”.

 




Repórter : Polliane Torres

















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