Nilmar Lage

Para Luís Giffoni, o bom livro é aquele que deixa lembranças
IPATINGA - O que é mais importante: a inspiração ou o trabalho de escrever e refazer o texto? É possível ao autor publicar o texto sem necessidade de revê-lo? Para o escritor Luís Giffoni, inspiração não existe. Essas e outras questões acerca da produção literária foram abordadas pelo escritor em palestra promovida no 6º Salão do Livro Vale do Aço, pelo projeto Sempre um Papo, em Ipatinga.
O escritor mineiro é graduado em Engenharia Civil e Astrofísica pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Também cursou literatura norte-americana no ICBEU-BH – Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Tem 21 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaios e novelas juvenis. Suas obras receberam diversas premiações, além de estudos, traduções e adaptações no Brasil e no exterior. Sua peça “In Memoriam” foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão, em 2004. Giffoni faz palestras em todo o Brasil, bem como nos Estados Unidos e Europa.
Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, o escritor falou sobre o processo de criação. Segundo ele, a publicação de uma obra não tem a ver com a ideia romântica de inspiração. Confira.
DIARIO DO AÇO – Você acredita que o ofício do escritor é fruto de ralação ou inspiração?
LUÍS GIFFONI - Sempre tem o dilema entre inspiração e ralação. Não acredito em inspiração. Você não faz nada inspirado. Isso é uma coisa ocasional. Para fazer qualquer obra, inclusive um livro, é preciso ralar muito. Tem que escrever, deixar na gaveta, tirar e fazer de novo. João Cabral de Melo Neto, enfrentando o mesmo problema, uma vez disse: existem poetas inspirados e poetas esforçados. Ele era esforçado. Eu também sou um autor esforçado.
DA – Para você, qual é a parte mais complicada no processo de produção literária?
LUÍS GIFFONI - Criar é muito difícil. O problema é que, quando está criando, você não sabe exatamente onde aquilo vai dar. O importante é começar. Às vezes, você tem um insight, uma luz que desce do céu, um santo que baixa, que dá aquela direção ao livro. Mas isso é muito raro. O normal mesmo é sentar todo dia com método e trabalhar. Não importa a profissão. Todo mundo passa por esse processo da inspiração e ralação. É preciso se informar, pesquisar e ler muito para criar.
DA – Apesar de não acreditar na inspiração, você acha que a habilidade da escrita é um dom?
LUÍS GIFFONI - Já tentei ser jogador de futebol e nunca consegui. Alguma coisa nasce com a gente, mas acredito que pode ser sim aprendido o ofício da escrita. É preciso ler muito e praticar.
DA – Você tem formação nas Ciências Exatas. Como elas influenciam no seu trabalho como escritor?
LUÍS GIFFONI - Acho que a grande contribuição que os escritores podem dar é traçar um retrato do nosso tempo, que nunca existiu antes. Tudo já foi escrito, mas a história de hoje é escrita agora. O escritor quer queira, ou não, é responsável pelo tempo dele. Para dar um bom retrato do seu tempo, ele tem que ser escritor e especialista em generalidades, para acrescentar vários conhecimentos em sua literatura. Se a obra permanecer, quando pessoas lerem aquele livro vão saber o que se pensava naquela época, e o que foi repetido de períodos anteriores.
DA – Qual sua opinião sobre o uso da tecnologia como ferramenta da literatura?
LUÍS GIFFONI - Sou totalmente a favor da tecnologia. Acho que o livro eletrônico é ótimo, pois vai divulgar e ajudar a ler mais. O Google (portal de buscas na internet) já digitalizou 20 milhões de obras até o ano passado. Isso significa que temos biblioteca fantástica ao nosso alcance. Mas o livro tem seu lugar. Você pode abrir na página que você quer, sem precisar de bateria. Ele pode ser levado no bolso e ainda tem aquele cheiro e o tato. É mais fácil de voltar ou avançar as páginas. Isso a tela não traz. Além de ser um pouco cansativo para ler. Acho que o livro não vai desaparecer. Ele é uma altíssima tecnologia. Os primeiros livros foram feitos pelos chineses impressos em blocos de madeira, há 1300 anos. Ele nunca morrerá.
DA - Para você, o que é um bom livro?
LUÍS GIFFONI - Pra mim, livro tem que ser igual mel que você passa no dedo. Depois de dez minutos, o gostinho continua ali. Acho que o livro é assim, mesmo depois que você o fecha ele tem que deixar alguma coisa para você lembrar dele.
DA – Papel aceita tudo?
LUÍS GIFFONI – Aceita. Tenho visto tanta coisa por aí. Hoje tem muita gente escrevendo e colocando qualquer coisa no papel, sem senso crítico, ser ter lido e nem desconfiar que está chovendo no molhado. Muita gente consegue projeção com base em repetições. Às vezes, me pergunto: Será que disso vai nascer uma nova tendência literária ruim? De repetição? Sobram histórias de vampiros e diários de adolescentes, por exemplo.