Álbum de Família

Zélia Olguin deixa como herança a beleza e potencial de mudança social da dança
IPATINGA - “A dança pra mim é a vida”. Essa foi a definição de dança dada por Zélia Olguin em sua última entrevista, concedida ao DIÁRIO DO AÇO, em 17 de dezembro de 2011. A pioneira da dança faleceu na manhã de ontem, aos 87 anos, no Hospital Márcio Cunha, com falência múltipla de órgãos. O corpo é velado no Cemitério Parque Senhora da Paz desde as 18 de ontem. O sepultamento está marcado para hoje, às 9h.
Amante das artes, Zélia Olguin construiu em Ipatinga uma história marcada por luta pelas artes e por espaços para formação e apresentações culturais. Nascida em 1925, Zélia de Souza Franco Olguin cresceu na cidade de São Paulo e iniciou sua formação artística no ano de 1949, com madame Maria Olenewa, pioneira do balé clássico no Brasil. Com pouco tempo já dava aulas em várias academias na região paulista, indicada pela sua professora.
Em janeiro de 1964, já casada com o argentino Matias Alberto Olguin, Zélia Olguin vem passar férias na região onde seu marido trabalhava vendendo livros técnicos. Após o nascimento de Salette Olguin, em Coronel Fabriciano, Zélia retorna para São Paulo. Em seguida ela volta à região sob a condição de poder lecionar balé. Em um trecho do livro “Ciranda dos Sonhos”, escrito por Zélia Olguin, a bailarina registrou uma fala dita ao seu marido na época: “O que são anos, para nós que vamos morar em uma cidade que está começando? Vamos unir e dar oportunidade para a região ter contato com a área cultural. Tenho certeza que todos vão adorar”.
Espaços
Estabelecida em Coronel Fabriciano, começa sua primeira turma de balé no Clube Elite na área da escola de samba “Vai quem quer”, em Timóteo. Em seguida, Zélia abre turmas em Ipatinga e Fabriciano. Em 1966 muda-se para Ipatinga e ministra aulas na Corporação Musical Santa Cecília.
Em 1967 sua filha Salette, aos três anos de idade, começa a dançar. Em 1970, Zélia Olguin constrói sua academia em um prédio que era o antigo refeitório da Usiminas, o “bandejão”. A Academia Olguin passa a ser então o primeiro teatro da região. Recebia espetáculos variados e servia de espaços para ensaios e oficinas.
Posteriormente, a Academia foi tombada como patrimônio cultural do município. Enquanto Zélia Olguin usava o espaço para ministrar aulas de balé, o marido Matias Olguin ministrava aulas de karatê. Em 1974 Salette, aos dez anos, assume as aulas ministradas por sua mãe, afastada por um problema de saúde. Hoje, Salette dá sequência ao trabalho iniciado pela mãe. O irmão, Júlio Olguin, mantém as aulas de Karatê iniciadas pelo pai.
Formação
No ano de 1978, devido a reformas da academia, Zélia Olguin prefere utilizar o espaço da Casa de Cultura de Coronel Fabriciano para suas apresentações. Nesse mesmo período começa uma preocupação em formação e integração, já que surgiram outras linguagens da dança. Surge então o Encontro de Dança do Vale do Aço (Endança) que tem sua primeira edição em maio de 1986 e está na ativa até hoje. Em 1994, o Instituto Cultural Usiminas inaugura o Teatro Zélia Olguin, em homenagem à batalha da pioneira pela arte.
Outro grande trabalho exercido por Zélia Olguin eram as aulas ministradas gratuitamente para alunas sem condições de pagar o curso. Hoje, o projeto Centro de Referência em Dança, executada por Salette Olguin, nos últimos cinco anos, dá sequencia a essa vertente. A iniciativa promove aulas de balé clássico e dança contemporânea gratuitas, seguidas de montagens de espetáculos.
Divulgação

Uma faixa preta em frente ao teatro demonstra estado de luto
Teatro Zélia Olguin de luto
Em respeito à artista, o Instituto Cultural Usiminas, decretou luto de sete dias no teatro que leva o nome da pioneira. Em nota, o Usicultura declarou: “Nosso sincero sentimento aos familiares e amigos da Dona Zélia Olguin. Como uma demonstração de carinho e reconhecimento pelos trabalhos artístico-culturais desenvolvidos pela bailarina na região, em 1994, a Usiminas intitulou o seu primeiro espaço como Teatro Zélia Olguin. O Teatro estará de luto nos próximos sete dias. Temos orgulho por participar de sua trajetória e eternizar o seu nome”.
Grão Fotografia

Zélia Olguin com a filha Salette e netas Juliana e Larissa Olguin, todas bailarinas
“Temos uma missão muito grande pela frente”
Acreditar que um sonho pode virar realidade. Essa é a principal marca da trajetória de Zélia Olguin, que deixou para a filha Salette Olguin e as netas, Larissa Olguin e Juliana Olguin a missão de dar continuidade ao seu trabalho. Desde que a mãe ficou com a saúde debilitada, Salette tomou frente dos projetos de aulas de dança e Endança. “Ela fez muito pela cidade, por todos nós. Minha mãe era uma pessoa linda. Agora ela descansou”, declarou Salette Olguin.
A filha ressalta a responsabilidade de seguir com o legado de dona Zélia. “Que responsabilidade! Ela ensinou e mostrou que tudo era possível, pra gente não desistir jamais. Estamos na luta que ela começou e não tem fim. Vamos continuar lutando e mostrar que a dança é coisa maravilhosa, como ela fazia. Temos uma missão muito grande pela frente”, afirmou Salette.
Endança
A produtora cultural Marilda Lyra atuava ao lado de Zélia na produção de projetos desde 2000. Ela lembra que o Endança começou em 1986, feito com recursos próprios. “Naquela época não existia lei de incentivo e o evento era realizado em quinze dias. O Endança foi patrocinado pela primeira vez em meados de 1999”, comentou Marilda Lyra.
As aulas de balé, o Endança e todos os eventos culturais da região passavam pela Academia Olguin. “Ana Botafogo já dançou no palco da Academia. O Endança foi um projeto que abriu caminhos para muitos grupos de dança”, recordou a produtora. Para Lyra, a região perde um exemplo de luta. “Ela transformou sonho em realidade. Numa época em que não tinha nada na cidade, ela cria um palco, um teatro com 250 lugares. Zélia acreditava que a arte é possível”, falou.
“Ficamos órfãos de vez”
Os grupos da dança da região são herdeiros de Zélia Olguin. Vários artistas da dança e de outras vertentes passaram pelas mãos dela. Um deles é o bailarino do Grupo Hibridus, Luciano Botelho, 39 anos. Ele revela como era Zélia Olguin como professora. “Fiz aula com ela por um tempo na época da Academia Olguin. Na época quase não tinham homens na turma. Zélia era super exigente e divertida. Brincava muito, mas era séria. Andava com uma varinha na mão para corrigir a postura dos alunos. Ela levava a dança muito a sério e sempre agradecia aos finais das aulas”, revelou.
Com a recente morte de Darci di Mônaco, o bailarino afirma que a classe está plenamente órfã. “Existe dança hoje por causa da dona Zélia. Todos que fazemos dança hoje, em algum momento, passamos pela Zélia ou Salette. A Academia Olguin é símbolo de luta dela. Com a partida de Darci e Zélia perdemos dois pilares das artes. A gente ficou meio carente. Os dois eram os pais da arte. Ficamos órfãos de vez”, lamentou Luciano.
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Quarenta anos de Academia Olguin - 18/12/2011
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