Fernando Cavalcanti /BBC Brasil

“E agora, por ser fim de semana, descansemos todos e deixemos, principalmente, os mortos, em paz". Esse epitáfio, dedicado por Ivan Lessa ao seu mestre e amigo Millôr Fernandes, em março último, serve, agora, para marcar a saída de cena, na sexta-feira, de um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros, aos 77 anos, em Londres, onde residia desde 1978.
Ivan Pinheiro Themudo Lessa, filho do escritor Orígenes Lessa, mostrou seu talento em diversas publicações brasileiras, entre elas as revistas "Senhor"; "Veja"; "Playboy"; os jornais "Folha de S. Paulo"; "O Estado de S. Paulo"; "Jornal do Brasil", e na TV Globo.
Com um timaço formado por Millôr, Paulo Francis, Sérgio Cabral, Tarso de Castro, Fortuna, Henfil, e tantos outros, Lessa ajudou a consolidar “O Pasquim”, o hebdomadário que desafiava a ditadura militar. Foi o criador, em parceria com Jaguar, do emblemático Sig. O simpático ratinho, um híbrido nascido da inspiração no psicanalista Sigmund Freud e da anedota "Deus criou o Sexo, Freud criou a sacanagem", virou símbolo cult.
O Pasquim era curtido de cabo a rabo, mas boa parte dos leitores ia direto às colunas "Gip! Gip! Nheco! Nheco!"; "Fotonovelas"; e os "Diários de Londres", para se deliciar com os textos sarcásticos e demolidores da fértil e inesgotável imaginação de Ivan Lessa.
Em telegrama divulgado pela Presidência da República, Dilma Roussef define Ivan Lessa como "irônico, mordaz, provocador, iconoclasta e surpreendentemente lírico - acima de tudo brilhante com as palavras". Gregos e troianos, petralhas e tucanos, assinem embaixo, por favor!
O polêmico Diogo Mainardi destacou a capacidade de Lessa de monitorar o Brasil, ressaltando que a distância não influenciou para forjar a visão crítica do jornalista sobre o “Bananão”. “Ele foi embora, em 1978, porque já tinha essa visão de mundo”, resume.
Uma percepção que continua longe de muitos brasileiros, daí a facilidade para massificar a empulhação do país paradisíaco arquitetado por Deus, e diametralmente oposto ao cotidiano da população nas escolas, “rodovias”, na saúde e na segurança públicas.
O jornalista Geneton Moraes Neto (TV Globo), em seu blog "Dossiê Geral", com muita propriedade, registrou: "o Brasil deu um novo passo em direção à mediocrização ampla, geral e irrestrita: o coração de Ivan Lessa parou de bater".
Em Saia do meu caminho, Belchior, em meio a reminiscências, adverte que, inexorável, o tempo “mexe” com a gente. Independentemente de ideologias ou empatias, heróis, amigos e desafetos morrem de overdose, de doenças naturais, abatidos por uma bala que uma estrela amiga não consegue parar, nas descuidadas estradas assassinas e muitas outras armadilhas fruto do descaso e da incompetência de quem está no poder.
O corpo será cremado. Os mortos devem ser deixados em paz. Mas em nome da irreverência, da desconfiança em tudo e sobre todos, do desdém do politicamente correto e outras baboseiras que viram dogma no Brasil, que seja eternizada a obra e, sobretudo, o civismo do imortal Ivan Lessa.
Por João Senna