10/04/2012 - 00h00
Filho preserva obra de Mazzaropi
André Luiz Mazzaropi fala sobre a trajetória do grande jeca brasileiro


Acervo Museu do Mazzaropi/ Divulgação
MAZZAROPI1
Por trás das câmeras, Mazzaropi era um homem tímido

DA REDAÇÃO - Com seu jeito caipira de ser, falar e andar, o memorável Amácio Mazzaropi arrastou multidões para o cinema e faz, até hoje, novos fãs. Neste mês, sua obra é lembrada com intensidade, em função do seu centenário, comemorado doa 9 de abril. Amácio Mazzaropi nasceu em 9 de abril de 1912, em São Paulo, e morreu na manhã do dia 13 de junho de 1981, aos 69 anos de idade, com câncer na medula óssea. O ator morreu solteiro e não teve filhos naturais. Mas, ao longo de sua vida, criou cinco pessoas, que eram tratadas como seus filhos: João Batista de Souza; Péricles Moreira; Pedro Francelino de Souza; Carlos Garcia e André Luiz de Toledo.

O único filho adotivo que procura manter viva a obra e memória do ator é André Luiz Toledo. Filho de família tradicional em Taubaté (SP), ele conheceu Mazzaropi nas filmagens de “No Paraíso das Solteironas”, aos 11 anos. Daí em diante, os dois criaram um vínculo tão forte que André Luiz passou a integrar o elenco de alguns de seus filmes e acompanhar a vida do ator até seus últimos dias, tornando-se, então, André Luiz Mazzaropi. Ele atuou nos últimos quatro longas de Mazzaropi: “Jecão... Um fofoqueiro no Céu”, “Jeca e Seu Filho Preto”, “A Banda das Velhas Virgens” e “O Jeca e a Égua Milagrosa”.

O ator, que luta para preservar a obra e memória do pai, concedeu entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, por telefone. Na conversa, ele revela fatos da vida pessoal e profissional do pai adotivo, além de adiantar alguns projetos futuros.


Divulgação
I018185.jpg
André Luiz fez, por 30 anos, a turnê com o espetáculo “Tem um Jeca na Cidade”

Filho do Jeca
Como forma de homenagear o pai, André Luiz montou o espetáculo “Tem um Jeca na Cidade”, com base em um monólogo musical escrito por Mazzaropi. André Luiz fez uma adaptação da história e saiu, a partir de 1983, Brasil afora levando a figura do Jeca, construída pelo pai. A estrutura do espetáculo é centrada em causos e música. “O mais importante em toda a minha andança com a peça foi que o público teve a consciência de que ali estava apenas o filho do jeca e não o próprio Mazzaropi. Em 30 anos, fiz 1.583 apresentações com o show, que já cumpriu o seu papel e se encerra no final do ano”, declarou André Luiz.

Acervo
André Luiz guarda fotos da carreira do ator, de momentos pessoais e dos bastidores das gravações. Ele detém o direito de exibição gratuita de alguns do filmes de Mazzaropi. É com esse acervo que André Luiz promove, pelo Brasil, exposições e exibições da obra do pai. O ator também mantém um museu com as obras do pai em um espaço do Hotel Fazenda Mazzaropi, em Taubaté.
Ele conta que, neste mês, tem sido procurado com frequência, em função das comemorações do centenário do nascimento de Mazzaropi. Mas, em geral, André afirma que a obra do pai não recebe o devido valor. “Acho poucas as homenagens, considerando a amplitude da obra de Mazzaropi. Mas o mais importante é que nesta semana mais de mil cidades brasileiras prestam uma homenagem a ele”, pontuou.


Álbum da Família
I018182.jpg
Foto tirada em 1978, na praça Oswaldo Cruz, na cidade de São Luiz do Paraitinga (SP), durante a produção do filme Jeca e Seu Filho Preto. Na foto: Carlos Garcia (em pé), Amácio Mazzaropi, André Luiz Mazzaropi e um figurante

Dificuldade
Apesar da importância da obra de Mazzaropi, André Luiz revela que sempre encontra dificuldades em conseguir apoio para os projetos relacionados ao ator. “Tenho muita dificuldade de conseguir apoio para meus projetos relacionados à obra dele. Nesse sentido, o Brasil tem esse defeito de deixar em segundo plano a sua cultura genuína e preferir o que é mais moderno. Ninguém foi mais discriminado do que o jeca, mas a figura simplória sobreviveu e hoje continua encantando o povo. Por falta de apoio, vou parar com alguns projetos e tentar outros”, reclamou André.

Novos projetos
Em breve, o público poderá conferir novas obras que fazem menção a Amácio Mazzaropi. André Luiz informa que vai publicar um livro sobre a vida e a obra do pai. “Tive que parar a produção do livro em função das comemorações do centenário, mas em breve ele será lançado”, adiantou o ator.
Algumas novidades estarão no cinema. O ator conta que, no final deste mês, começará a rodar um curta-metragem sobre Mazzaropi. “Vamos mostrar a história pessoal dele, que o Brasil desconhece. A partir desta obra, quero fazer um longa que conta a minha história com ele. A produção do filme deve começar em setembro, com lançamento previsto para janeiro de 2013. Já o curta será lançado no Festival de Cinema de Gramado”, detalhou André Luiz.

Outro projeto nos sonhos de André Luiz: recuperar a casa onde o pai nasceu, em São Paulo, na rua Vitorino Camilo, no bairro Santa Cecília. “Encontrei a casa e quero muito fazer dela um memorial. Tomara que eu encontre apoiadores para concretizar esse sonho. O museu que hoje existe no hotel tem um caráter mais turístico, e queria reunir a obra com uma abordagem mais cultural nesta casa”, afirmou.

 

Acervo Museu do Mazzaropi/ Divulgação
I018183.jpg
“A Banda das Velhas Virgens” foi o filme que marcou André Luiz


“Ele era introvertido”

 


Para filho adotivo, personagem Mazzaropi “nasceu com espírito de jeca”

A história de Amácio Mazzaropi é marcada por muita determinação na busca pelos seus objetivos. Filho do italiano Bernardo Mazzaropi e da paulista Clara Ferreira Mazzaropi, Amácio teve uma infância muito pobre. Aos 14 anos, mudou-se com a família para Sorocaba, mas o desejo de se tornar artista o levou a fugir para Curitiba (PR), para viver com um tio. Lá encontrou o faquir Ferry, e voltou a São Paulo para começar sua carreira.

Seu sucesso começa no teatro, mas logo veio a projeção no rádio e na TV Tupi. No programa Rancho Alegre, conheceu a atriz Geni Prado, sua companheira artística por toda a vida. Ela atuou em 28 de seus 32 filmes. A partir de então, o artista entrou no cinema pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde se transformou no rei do cinema.
 

Após oito filmes como empregado, Amácio decidiu produzir seus próprios filmes. Para isso, em 1958, fundou a PAM Filmes - Produções Amácio Mazzaropi. Com o novo empreendimento, produziu 24 filmes, que levaram às salas de cinema no Brasil 206.779.311 pessoas. Destes, 18 produções estão entre as mais assistidas do cinema nacional.
 

Em 1962, Amácio comprou a Fazenda da Santa e a transformou em seu primeiro estúdio, em Taubaté. Depois, construiu seu grande espaço de gravações e o transformou em hotel, onde hoje funciona o Hotel Fazenda Mazzaropi.


Álbum da Família
I018186.jpg
Na foto: Amácio Mazzaropi com os filhos André Luiz (D), e o neto Carlos Garcia Júnior (Carlinhos)

Filhos adotivos
Na fazenda onde funcionava o estúdio, Mazzaropi morava com seus filhos adotivos. De acordo com André Luiz, o irmão Carlos Garcia era quem cuidava da fazenda. “Nós vivíamos lá, mas cada um tinha a sua vida. Às vezes, passávamos meses sem nos ver”, relata o ator. André alega que, no final da vida de Amácio Mazzaropi, apenas ele ficou. “Quando ele estava doente, eu tinha saído para estudar, mas voltei para cuidar dele. Passei dois anos ao lado de Mazzaropi, sentado à beira de sua cama. Buscamos todas as alternativas possíveis para tratar o câncer. Mas, infelizmente, naquela manhã do dia 9 de abril, o perdemos”, disse André.

Testamento “forjado”
O ator afirma ainda que, após a morte de Amácio, ele ficou fora de um testamento que teria sido “forjado”. “Eu fui o único a ficar sem parte na herança. O testamento tinha apenas o polegar direito de Mazzaropi como assinatura. Mas herdei o que melhor havia dele, o talento para os palcos e comecei a circular o espetáculo em sua homenagem”, frisou.

Filme marcante
Dos quatro longas em que atuou ao lado do pai, “A Banda das Velhas Virgens” foi o mais marcante para André Luiz. “Neste filme, interpretei o filho de Mazzaropi na cadeira de rodas. Esse foi o trabalho que mais enriqueceu a minha carreira. Principalmente porque consolidou a minha relação de pai e filho com Amácio, além de ter me projetado”, reconhece André Luiz.

Nos bastidores
Perguntado sobre como era Amácio Mazzaropi fora de sua atuação como jeca, André Luiz afirma que o ator era muito profissional. “O Amácio era diferente do jeca Mazzaropi. Ele era introvertido e viveu como uma pessoa no anonimato por 37 anos. Tratava-se de um profissional que estava cem anos à frente de seu tempo”, destaca André.

Para vencer a timidez e incorporar um matuto que ainda faz muita gente rir, Amácio não precisava se esforçar tanto. “Ele nasceu com espírito de jeca. Para criar o jeca do Brasil, Mazzaropi misturou suas várias personalidades. Por isso, seu personagem era tão especial”, justifica André Luiz.

Circo
Engana-se quem pensa ser o cinema a grande paixão de Amácio Mazzaropi. “Diferentemente do que muitos historiadores contam sobre ele, o cinema não era sua paixão. Seu grande amor estava no circo. Ele fazia cinema porque gostava também, mas era lá que garantia o sustento”, ressalta André Luiz, que participou de alguns trabalhos em circo com Mazzaropi.

Jecas brasileiros
Hoje, o personagem do jeca inspira humoristas e atores nos quatro cantos de país. Muitos desses espetáculos arrastam milhares de pessoas para teatro e praças públicas, onde é possível ver o legado deixado por Mazzaropi. Aquele jeca que antes era visto com olhar de desconfiança pelo público brasileiro se tornou um ícone.

Para André Luiz, o sucesso do jeca no Brasil deve-se ao reconhecimento do público. “O jeca faz sucesso porque nós, brasileiros, somos um bando de jecas. Quem não tem alguma raiz, mesmo que distante, na roça? O Brasil nasceu nas roças e são elas que o tornam tão extraordinário”, finalizou André Luiz.

 

 

 



Repórter : Polliane Torres







ATENÇÃO: Este comentário será moderado, podendo ser aprovado ou não. Evite palavras que possam comprometer sua imagem. Seu email não será divulgado.











janaina reis
23/05/2014 - 21h18
olá, sou muuuito fã do Mazza!Tenho e já assisti aos 32 filmes dele várias vezes!! Eu queria muito ter notícias sobre o Carlos Garcia...não tem nada sobre ele... é verdade q ele morreu? quando? como? por favor me respondam tá? aguardo ansiozíssima. obrigada


Museu
21/04/2012 - 19h02
Um bom caminho para conhecer a história de Amacio Mazzaropi, o imortal Jeca do cinema nacional, é o Instituto Mazzaropi (www.institutomazzaropi.org.br), responsável pela administração do Museu Mazzaropi e por outros projetos como a biografia “Sai da Frente! A vida e a obra de Mazzaropi”, de autoria de Marcela Matos, entre outros. São quase 20 anos de pesquisas, coleta de dados, fotografias e documentos. Um acervo valioso para quem quer conhecer mais detalhes da carreira, da história e do sucesso de Mazzaropi. Mais no www.centenariomazzaropi.org.br











OUTRAS NOTÍCIAS DO CADERNO ESPECIAL


ÚLTIMAS NOTÍCIAS



25/10/2014 - 12h10

25/10/2014 - 12h00

25/10/2014 - 11h28

25/10/2014 - 11h20

25/10/2014 - 11h00

25/10/2014 - 10h25

25/10/2014 - 09h41

25/10/2014 - 09h31

25/10/2014 - 09h29

25/10/2014 - 09h25

25/10/2014 - 09h17

25/10/2014 - 09h13

25/10/2014 - 09h03

25/10/2014 - 09h00

25/10/2014 - 08h59


ANTERIOR    2 3 4 5 6 7 8 9     PRÓXIMO