11/12/2010 - 23h00
Devoção à “Cruz do Santo Lenho”
Relicário de 1913 traria fragmentos da cruz em que Jesus foi crucificado


Hermes Quintão
CRUZ DO SANTO LENHO
A cruz é um relicário de prata que apos aberto revela o tecido onde estariam guardadas lascas da cruz da 'crucificação' de Cristo, da coroa de espinhos e até grãos de terra por onde Jesus caminhou há 2 mil anos

TIMÓTEO - Em 1842, na região de Santana do Alfié, distrito de São domingos do Prata, nasceu o fazendeiro João Borges Quintão que, anos mais tarde, teria a infelicidade de ver a esposa, Maria Porcina Ferreira Torres, então com 21 anos, morrer durante o parto da primeira filha do casal.

A garotinha recebeu o nome de Maria Porcina Borges, em homenagem à mãe. O pai voltou a se casar e, em 27 de junho de 1871, Maria Porcina ganhou um irmão, que passaria à história como o padre João Borges Quintão, um dos precursores da educação no Vale do Aço.

Em 1920, quando já havia abandonado o sacerdócio, João Borges Quintão voltou para o humilde arraial de Babilônia, hoje Marliéria, onde nascera.

Para sustentar a família, abriu junto com a esposa um colégio que funcionou durante três anos (1920-1922). O educandário era chamado “Nossa Senhora das Dores”, sua santa de devoção.
 

Experiência para administrar o educandário não faltava, já que o ex-padre havia encerrado a carreira religiosa como reitor do Seminário de Curitiba; antes havia sido professor em importantes instituições de educação católica da época, incluindo os tradicionais seminários do Caraça e do Rio de Janeiro. Era um intelectual no sentido pleno da palavra.

Papa Pio X
A sobrinha do religioso, Efigênia Quintão Moreira, 68 anos, mais conhecida como Gininha, é uma antiga moradora de Marliéria que hoje reside no bairro Santa Cecília, em Timóteo. Ela conta que, em 1913, o seu tio-avô chegou a ser nomeado bispo de Florianópolis pelo papa Pio X.

“Mas ele recusou a honraria porque queria se casar”, lamenta, enquanto acende uma vela para abrir cuidadosamente um objeto sagrado que, segundo conta uma antiga tradição da família, pertenceu ao tio. Teria sido um presente do próprio papa Pio X, dado a João Borges Quintão quando ele foi ao Vaticano explicar ao pontífice as razões que o levaram a recusar a sagração ao bispado.
 

O objeto sagrado em questão é a “Cruz do Santo Lenho”, um relicário de prata que ostenta alguns poucos fragmentos da cruz em que morreu Jesus Cristo, fios de cabelo do Messias, microlascas da coroa de espinhos e até porções da terra por onde Jesus caminhou há 2 mil anos.

Tudo envolvido em um tecido ricamente decorado com motivos sacros e distribuído nas formas da Cruz do Santo Lenho. Há ainda inscrições em hebraico.

 

 

 

 
Hermes Quintão
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Gininha ganhou o a função de guardiã da relíquia depois que a mãe foi curada dos ‘desmaios’ e ela pôde se casar com o então ‘guardião’ da preciosidade

Uma devoção familiar que
já dura quase um século

 

 

 

Em 1913, na cidade do Vaticano, o então padre João Borges Quintão teria recebido um importante presente do papa Pio X. Mas somente na
década de 1960 sua sobrinha-neta Efigênia Gininha Quintão Moreira veio a se tornar a  guardiã da “Cruz do Santo Lenho”; função herdada pelo
casamento com o então guardião e trabalhador rural Helvécio Moreira Borges.

O marido, por sua vez, recebera a relíquia da mãe, dona Maria José Borges, irmã do ex-padre João Borges Quintão. Ela também era irmã, por parte de pai, da avó de Gininha, dona Maria Porcina Borges. Foi ela quem primeiro teria recebido a incumbência de guardar a relíquia do irmão e ex-padre João.

A atual guardiã da cruz é filha de José Sebastião Quintão (Zezé). Ele era filho da irmã (por parte de pai) do padre João: dona Maria Porcina Borges, cuja mãe morrera durante o parto.

A avó de Gininha foi casada com o fazendeiro Sebastião Martins Quintão que, devido à habilidade para mediar conflitos nas regiões de Trindade e Tejuco Preto, em Marliéria, era chamado de ‘Capitão’ pelo povo de seu tempo.
 

A relíquia, conta a guardiã, desde sempre despertou muita veneração junto à família. Dona Gininha lembra que seu noivado durou quatro anos – uma eternidade para a época - porque havia feito a promessa de que somente se casaria depois que a ‘cruz’ curasse sua mãe, dona Raulina, que no início da década de 1960 sofria sérias crises de desmaio.

Na época, a família vivia no sítio Casa Nova, na região da Onça, em Marliéria, e enfrentava muitas restrições financeiras. Mas mesmo sem
acesso a médicos, a matriarca conseguiu se curar, o que para a família foi o “milagre” alcançado após as incontáveis novenas que todos
rezavam em torno da cruz do “Santo Lenho”.


Gininha, então, se casou com Helvécio e teve dois filhos: José Márcio e Naila Maria. Hoje, ambos os herdeiros se dizem devotos da relíquia
e afirmam que são constantemente abençoados por ela.

 

 

 

Hermes Quintão
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Padre João Borges Quintão morreu no dia 23 de julho de 1927, aos 54 anos: ganhou relíquia do Vaticano, mas abriu mão do sacerdócio para se casar

Milagres e educação
atribuídos à relíquia

 

 

 

Naila Maria Quintão, filha da guardiã da relíquia, é vice-diretora de uma escola ipatinguense, mas mora com a mãe Gininha, o marido e os
dois filhos em Timóteo. Para trabalhar, a educadora precisa dirigir cerca de 50 quilômetros todos os dias.

No caminho, para se proteger, vai rezando a oração do “Santo Lenho” que aprendeu com o pai quando criança. Ela garante que já assistiu a vários milagres. Um deles foi a recuperação do sogro, que estava desenganado pelos médicos em uma cama de hospital.
 

Na avaliação de Naila, a relíquia é mesmo poderosa; credita à fé dela e da família a ‘graça’ de ela e o irmão terem prosperado nos estudos; ele tem um bom emprego em uma empresa da região e ela, precocemente, foi aprovada em um concurso público, no início dos anos 90, que lhe possibilitou romper barreiras como a morte do pai, ocorrida quando ela era ainda muito nova.

Fé e razão
Viúva, a mãe só podia contar com o salário de servente escolar em um grupo de Marliéria para criar os dois filhos. Em meio às dificuldades,
dona Gininha se valia da fé e da razão para educar a família.

Rezava, inclusive, ajoelhada sobre grãos de milho, para que a “Cruz do Santo Lenho” fizesse o milagre de a vida melhorar. Mas a guardiã também fazia a parte dela no campo material, ao não se descuidar da educação dos dois filhos.

Afinal, essa era também uma importante lição de fé aprendida com o tio-avô e primeiro “dono” da relíquia, padre João Borges Quintão, que dedicara seus 54 anos de vida a espalhar o milagre da alfabetização e do ensino das ciências aos brasileiros. Em Marliéria, onde nasceu, uma escola pública leva o nome do religioso e educador João Borges Quintão.

 

 

 

 


Hermes Quintão
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O bispo da diocese de Itabira-Cel. Fabriciano, Dom Odilon, lembra que as relíquias devem ser respeitadas


Para dom Odilon, relíquia possui
valor histórico “extraordinário”

 

 

 

FABRICIANO - Em 42 anos de sacerdócio, o bispo dom Odilon Guimarães Moreira, de 72 anos, é a autoridade máxima da diocese de Itabira - Coronel Fabriciano.

Ele disse que nunca viu na região uma relíquia como a que supostamente existe em Timóteo. “O valor histórico da peça faz dela um objeto extraordinário”, disse ele, enquanto observava as fotografias da “Cruz” que ilustram esta reportagem.

Dom Odilon explica que as relíquias normalmente são fragmentos de ossos, cabelos, pele, roupas, tudo que estabeleça uma relação física com a figura material de Jesus ou dos santos e mártires que surgiram nos últimos 2 mil anos de Cristianismo.

A partir do século XX, o Vaticano passou a dar menos destaque a esses objetos, mas no passado, conta o bispo, praticamente todos os templos católicos dispunham da chamada pedra d´ara, um bloco de mármore disposto no altar-mor e em cujo centro eram depositadas as relíquias paroquiais.

Hoje, são poucas as igrejas que mantêm as pedras d´aras. As relíquias saíram de moda, a veneração diminuiu, mas a orientação da Igreja é no sentido de respeitá-las, mesmo não havendo como comprovar se são ou não verdadeiras.


De acordo com dom Odilon, assim como no caso das imagens de santos, as relíquias devem ser encaradas como instrumentos que facilitam a comunicação das pessoas com o divino, uma espécie de conexão entre o mundo físico e o espiritual.

Não importa se as relíquias foram ou não partes dos corpos de pessoas santas, o que importa é elas suprirem a necessidade humana de ver, tocar, sentir, apalpar algo, para se estabelecer uma relação tão profunda com o espiritual quanto a existente no mundo real e dos sentidos. 
 

“Não se adoram as relíquias, mas o Espírito Santo representado por meio delas”, pontua o bispo, ressaltando que a crença nas relíquias é uma questão de fé e, como tal, merece ser respeitada.

 

 

 

Cruz de Jesus Cristo teria
sido encontrada no ano 318

 

 

 

As primeiras relíquias começaram a surgir após 156 anos do início da era cristã, cujo ponto zero é o nascimento de Jesus, supostamente no
dia 25 de dezembro do ano 0.

Os ossos de São Policarpo, perseguido e queimado na fogueira por causa de sua fé no Cristianismo, foram recuperados por alguns seguidores no ano 156.

Diversos milagres foram atribuídos a essas relíquias ósseas e, desde então, a busca por tais objetos não parou mais em todo o mundo antigo.

Reza a tradição que a cruz da ‘crucificação’ de Jesus Cristo teria sido encontrada no ano de 318. E um fragmento dela talvez possa estar
escondido na relíquia guardada em Timóteo.

Segundo informa um artigo da Wikipedia, “no início do cristianismo, as relíquias eram importantes, principalmente partes de corpos de
mártires, pois considerava que seriam estes os primeiros a levantar-se no momento da ressurreição. Era, pois, importante para o fiel, ser
enterrado junto destas relíquias, ou pelo menos perto dos seus relicários, de forma a poder acordar para a vida eterna ao lado dos
soldados da fé.”


 

 

 

Relíquias despertam a
curiosidade e imaginação

 

 

Haja imaginação! Os caçadores de relíquias eram tão criativos que anunciaram não somente a descoberta de um, mas de alguns “santos
prepúcios”; eles se lembraram de que Jesus Cristo era judeu e, como todo bebê judeu, havia sido circuncisado, pois os meninos dessa
religião passam pelo bisturi do rabino. O ritual religioso é mantido até os dias atuais e consiste na retirada do prepúcio, a pele que
recobre o pênis, por meio de uma pequena cirurgia.

Conforme o livro “Curiosidades Católicas”, da Editora Vozes, “no princípio do século XII esta versão do prepúcio sagrado foi levada para Roma e apresentada ao Papa Inocêncio III, a quem foi pedido um veredito sobre a sua autenticidade. Com prudência, Inocêncio evitou um
posicionamento a respeito dessa polêmica. Já no século XVI, o Papa Clemente VII, mecenas de artistas como Rafael e Miguel Ângelo, grande perturbador do panorama político e religioso do seu tempo, declarou que o prepúcio sagrado era uma relíquia verdadeira e fruto do corpo de Jesus”. (HQ)

 




Repórter : Hermes Quintão







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