09/11/2017 17:40:00

Do que dizer sobre o desastre de Mariana

Stefan Salej



Há dois anos que as águas enlameadas rolaram da barragem da Samarco pelo lugarejo chamado Bento Rodrigues, pela minha Barra Longa, Paracatu, entre outros lugarejos onde antes havia a quietude e a paz. Tiraram vidas, empregos, esperanças e enlamearam os rios até o mar. Sujaram a alma mineira por dezenas de anos, alma de quem oferecia suas terras ricas de minérios para serem exploradas para o bem dos homens. E como inúmeras vezes nesse negócio, onde o ganho de alguns, em detrimento do prejuízo de todos, prevalece, assim aconteceu também no rompimento da barragem de Mariana.

Se não fosse a imprensa, que mostrou que depois de dois anos muito foi feito e nada aconteceu, que o desastre ainda povoa a memória e a vida das pessoas atingidas, provavelmente ninguém lembraria. As entidades de mineração, como seu sindicato e sua entidade federativa, não foram capazes de organizar uma análise crítica do que aconteceu e como está sendo resolvida a questão. A Secretaria de Meio Ambiente do Estado de Minas continua mais preocupada com a fiscalização das empresas dos adversários políticos dos amigos dos seus dirigentes do que com a questão da barragem de Mariana. Os acionistas da empresa, Vale e BHP, já estabeleceram que foi um desastre e, com uma solução mais de relações públicas do que de consertar o que está difícil de ser consertado, criaram uma fundação Renova e encheram de dinheiro para resolver o problema da empresa e não da população atingida.

Não é que Renova não faz um bom trabalho, faz. Mas o objetivo tanto da Renova como dos políticos mineiros e da própria Samarco, é colocar a empresa para funcionar. Assim vai gerar emprego e impostos e tudo vai cair no esquecimento. A Justiça estadual, com alguns jovens e dedicados procuradores, tenta reparar o dano, mas como sempre anda devagar e sem perspectivas de solução. Em resumo, segundo jornal Folha de São Paulo, a empresa se salva e o cidadão prejudicado fica prejudicado.

Nessa tragédia toda ainda há aproveitadores como os prefeitos de algumas cidades atingidas, o exemplo mais gritante é onde Barra Longa (que de fato virou um barra de lama longa), que prometeram mundos e fundos para os eleitores por conta das indenizações do desastre. E aí o dinheiro até pode ir para as prefeituras, mas não chega à população.

Em resumo, como Minas ainda tem muitas barragens como a de Fundão, em Mariana, e ninguém está fazendo nada para que o modelo de exploração mude, a única esperança que resta é que a exploração mineral cresça mais na Amazônia, porque assim ninguém em Minas fica preocupado com o que vai acontecer. Porque pelo andar da solução desse desastre, só rezando para que não aconteça o próximo, visto que, dependendo do governo e das mineradoras, dos seus líderes, do judiciário e dos políticos, nada de bom vai acontecer.

* Consultor empresarial, foi presidente do Sistema Fiemg e do Sebrae/MG


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