07/08/2017 13:16:00

Macaco em primeiro plano, Humano em segundo

Daniel Bydlowski




Planeta dos Macacos: A Guerra - nele vemos os símios lutando pela liberdade. Será o fim de Caesar?


O novo filme da franquia de Planeta dos Macacos, dirigido por Matt Reeves, mostra uma tendência muito comum nos dias atuais: o foco e a atenção em seres não humanos em detrimento da espécie humana. O longa, chamado de Planeta dos Macacos: A Guerra, é o terceiro filme na sequência de produções que começou com Planeta dos Macacos: A Origem, dirigido por Rupert Wayatt em 2011.

No entanto, é o nono filme da franquia com início nos anos 1968 e que conta até mesmo com seriados de televisão e animação. A diferença entre os filmes dos anos 60 com os atuais revela muito mais do que diferenças de estilo: ela expõe mudanças de como o ser humano enxerga a si mesmo no mundo.

O primeiro filme foi dirigido por Franklin J. Schaffner, inspirado no livro de mesmo nome do francês Pierre Boulle. Atuado por Charlton Heston, o longa contava a história de um grupo de astronautas que chegam a um planeta estranho onde macacos são inteligentes e humanos são quase como animais, sem poder falar ou raciocinar de maneira complexa.

Rapidamente nos identificamos com Taylor, o personagem de Heston que, por ser humano, é caçado e aprisionado para servir os primatas. Porém, Taylor rapidamente ganha notoriedade já que é o único humano que consegue falar. Ao mesmo tempo, ele se torna uma ameaça para os macacos governantes, que são portadores de um segredo que tentam esquecer.

O coronel McCullough criado por Woody Harrelson, um papel claramente inspirado no Kurtz de Marlon Brando em


No fim do filme, o segredo é revelado: a nave de Taylor nunca havia chegado a um distante planeta, mas voltou para a própria Terra em um futuro remoto, onde os humanos haviam destruído a si mesmos em guerras há muito tempo atrás. Sem ter o obstáculo humano, os primatas evoluem naturalmente, se tornando a espécie mais esperta e herdando o controle do planeta.

Embora fique claro que o futuro sombrio seja culpa dos seres humanos, o filme é contado pelo ponto de vista do homem, pelos olhos de Taylor. Assim, a espécie humana ainda pode se redimir. Representado por Heston, o ser humano presente é bom e nobre. Sua espécie pode ter se autoaniquilado, mas isto não significa que seus indivíduos não sejam heróicos e descentes.

Além do mais, a crueldade da maioria dos macacos contrasta fortemente com a bondade do protagonista. A espécie humana, ainda que representada por apenas um homem, é portadora de qualidades inigualáveis e altruístas frente ao ambiente ameaçador.

No novo filme, a história não é mais contada pelo ponto de vista humano, mas sim pelo ponto de vista de Caesar, o primeiro macaco a ganhar inteligência


Os filmes atuais mudam estas características completamente. Tomando como ponto de partida o momento no qual os macacos adquirem inteligência, o filme de 2011 não dá ao primata uma evolução natural, mas um desenvolvimento rápido causado pelo ser humano por meio de um soro que acaba dando aos primatas a ferramenta para se liberar dos caprichos humanos. Se no primeiro filme a inteligência dos homens redime Taylor e, com ele, a espécie humana, aqui a inteligência, e não a guerra, causa a sua derrota.

O novo filme continua esta tendência. Agora, a história não é nem mais contada pelo ponto de vista humano, mas sim pelo ponto de vista de Caesar, o primeiro macaco a ganhar inteligência. Não há nenhuma pessoa capaz de redimir sua espécie. Nos identificamos com os primatas como heróis e com mais ninguém. O filme, que agradará ao público com cenas empolgantes e efeitos especiais de última geração, nos dá, porém, uma visão cínica da humanidade, que não apresenta qualidades que a possam salvar. É uma visão de mundo triste, mas que infelizmente se torna cada vez mais comum.

Prepare-se para ver a atuação do coronel McCullough criado por Woody Harrelson, em um papel claramente inspirado no Kurtz, de Marlon Brando, em "Apocalypse Now" (1979). O militar comanda um grupo de soldados lunáticos na luta contra os símios.

Daniel Bydlowski é cineasta brasileiro com Masters of Fine Arts pela University of Southern California e doutorando na University of California, em Santa Barbara, nos Estados Unidos. É membro do Directors Guild of America. Trabalhou ao lado de grandes nomes da indústria cinematográfica como Mark Jonathan Harris e Marsha Kinder em projetos com temas sociais importantes. Seu filme NanoEden, primeiro longa em realidade virtual em 3D, estreia ainda este ano de 2017.


Imagem do filme Planeta dos Macacos, original de 1968


Reação dos Leitores





Comentários

Mark

14 de Agosto, 2017 | 08:28
Muito bacana sua resenha. Completa e analítica.
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