18/06/2017 10:30:00

Em média, dois motociclistas por mês têm algum membro amputado no HMC

Mesmo com várias cirurgias, o corpo do paciente ainda tem dificuldade de retornar ao normal, conforme explica ortopedista



Wôlmer Ezequiel


Cerca de 40 vítimas de acidentes com motocicletas já foram atendidas no Centro de Reabilitação do HMC
Dentre as vítimas dos acidentes de trânsito envolvendo motocicleta, que conseguem sobreviver, a maioria fica com sequelas com as quais terá que conviver para o resto da vida. A afirmação é do médico ortopedista do Centro de Reabilitação do Hospital Márcio Cunha (HMC), Leonardo de Ornelas Caldas. O profissional observa que, mesmo com várias cirurgias, o corpo de muitos pacientes ainda tem dificuldade de retornar ao normal e, às vezes, ele nem consegue voltar a desempenhar seu trabalho do mesmo modo que fazia antes de um sinistro.

Recentemente, o Diário do Aço divulgou que, de janeiro a abril, foram registrados 500 acidentes de motocicletas em Ipatinga, conforme dados oficiais anotados pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). A reportagem, desta vez, aborda o tratamento clínico a que são submetidos os sobreviventes.

O ortopedista também informa que os acidentes com motocicleta geram traumas de alta energia, tendo grandes chances de causar ferimentos graves no corpo, já que apenas a cabeça é que fica protegida. “O motociclista não tem muita proteção, senão o capacete. Então as lesões mais comuns estão as que ocorrem nos membros inferiores e superiores, que são as pernas e braços. E as fraturas variam desde a mais simples até as mais graves, como as expostas, em que o osso perfura a pele”, detalha Leonardo de Ornelas Caldas.

Leonardo Ornelas explicou sobre o processo de recuperação das vítimas de acidentes com motocicletas

Processo de recuperação
Em relação ao caso das fraturas expostas, o tratamento é de longo prazo, em torno de um ano, sendo necessário realizar várias cirurgias para chegar à etapa de reabilitação, conforme o ortopedista. “Esses pacientes geralmente usam implantes internos ou externos, que são as placas, parafusos e fixadores externos, para tentar voltar o mais próximo possível da anatomia e para retornar ao mercado de trabalho”, explica.

Perda de membros
O ortopedista Leonardo de Ornelas acrescenta que, como os traumas são de alta energia, o paciente às vezes já chega ao pronto-socorro sem um membro, sendo preciso fazer um procedimento o mais rápido possível para garantir a vida do motociclista. “O sangramento é intenso nesses casos. Então, temos que fazer uma cirurgia de emergência para salvar a vida do paciente, que acaba ficando com um coto de amputação após o procedimento”, esclarece.

Leonardo de Ornelas informa que o HMC atende, em média, de dois a três casos de fraturas expostas por dia, envolvendo vítimas de acidentes com motocicletas. Além disso, o hospital tem uma média de duas amputações por mês, em situações que, na maioria dos casos, também são de acidentes com motocicletas. “Por causa desses dados é que se torna necessário que os motociclistas adotem uma direção preventiva no trânsito, principalmente os adultos jovens, que possuem uma coragem muito grande no trânsito e acabam sofrendo acidentes gravíssimos que comprometem o resto de suas vidas”, alerta o médico.


O Centro de Reabilitação do Hospital Márcio Cunha funciona desde dezembro do ano passado

Centro de Reabilitação mantém equipe multidisciplinar

Com a criação do Centro de Reabilitação, no Hospital Márcio Cunha, o serviço ambulatorial é realizado por uma equipe multidisciplinar em um só lugar, atendendo a pacientes com problemas neurológicos e ortopédicos, avaliando suas perdas funcionais e estimulando o seu desenvolvimento e recuperação.

O time do setor conta com médicos ortopedista e neurologista, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogo, fonoaudiólogo, assistentes sociais, nutricionista e enfermeira.

Dados do Centro de Reabilitação mostram que, desde 7 de dezembro do ano passado, a unidade já atendeu cerca 40 pacientes, vítimas de acidentes com motocicletas. Além disso, a maioria dessas pessoas é do sexo masculino.


Ordeval Drumond perdeu a perna após um acidente com motocicleta, em março

Vítima de acidente com motocicleta se recupera após perder uma perna

O carvoeiro Ordeval Drumond, de 30 anos, é um dos pacientes do Centro de Reabilitação, que perdeu a perna esquerda em um acidente com motocicleta. Em entrevista ao Diário do Aço, Ordeval falou sobre o acidente e como faz para lidar com a amputação do membro inferior.

“Foi no dia 7 de março deste ano, perto do bairro Lagoa do Pau, em Jaguaraçu, onde ocorreu o acidente. Eu estava na estrada que vai para Antônio Dias, saindo de uma parada obrigatória e, no momento que eu arrancava a moto, veio um carro na contramão e me atropelou. A pancada foi tão forte que ele não prestou socorro e fugiu, porém, mais à frente, o carro dele também estragou, devido a pancada”, relata.

Segundo Ordeval, após o acidente ele perdeu a perna esquerda e ficou uma semana em coma na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas já está em processo de recuperação, que deve durar cerca de três meses. “Meu estado era muito grave. Mas já estou fazendo fisioterapia. Eu andava de moto desde novo, até caí uma vez e quebrei a perna, mas não foi nada sério como agora. Mas mesmo assim, eu nunca imaginava que iria acontecer isso. Agora é superar e seguir em frente”, conta.

Culpa
Conforme Ordeval, mesmo com muitas pessoas julgando a motocicleta como um veículo perigoso, não se pode esquecer que a responsabilidade é de quem pilota. “Eu vou ser sincero. A gente que sofre acidente joga a culpa no veículo, mas o veículo não tem culpa, a gente mesmo é que tem que ter atenção no trânsito. Tem que dirigir para os outros. No meu caso, eu estava certo, veio um veículo na contramão e me atropelou. Então a moto não teria culpa, e sim, o motorista. Então, o condutor de todo tipo de veículo tem que ter é mais atenção no trânsito”, avisa.

Lição
Conforme Ordeval, mesmo com a perda da perna esquerda ele pode continuar com sua vida, em busca de seus sonhos, além de poder aconselhar outras pessoas sobre os riscos de ser imprudente no trânsito. “Olha, a gente leva um choque após o acidente, mas para mim a vida não acabou. Espero que isso sirva de exemplo para que eu possa falar para alguém lá na frente. Além disso, não me impende de fazer algumas atividades do cotidiano. Vou até colocar uma prótese daqui a um tempo. Então, a vida continua. A gente não pode se abater por causa disso”, conclui.

Despesas com internações
De acordo com os dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Ministério da Saúde, de janeiro a abril deste ano, no Vale do Aço, houve um gasto de R$ 340.724,7 com internação de vítimas de trânsito, envolvendo motocicletas. Em Ipatinga o gasto foi de R$ 275.029,44; em Coronel Fabriciano de R$ 16.966,85; em Timóteo de R$ 29.885,10, e em Santana do Paraíso de R$ 18.843,31.

REABILITAÇÃO DE VÍTIMAS DE ACIDENTES COM MOTOCICLETAS


Tiago Araújo



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